O que aquela bolsa nos conta

Sua bolsa descansava inerte naquela mesa; para a maioria das pessoas, vazia de sentimentos, para ela, a representação de um mundo perfeito.

Seu design foi escolhido minuciosamente para agradar os mais diversos olhares. Sua aparência ostenta (em segredo) o estandarte de sua personalidade. Sua alça se prende e se gruda ao seu corpo, assim como seus valores éticos e morais. A decoração exterior é forte, impactante, não passa despercebida, assim como ela gostaria de ser. Mas não é, não foi.

Já o interior da bolsa (diferente do exterior, que é simples e belo) é complexo, confuso, desordenado. Lá estão contidos artigos essenciais para a sua difícil sobrevivência. Objetos de valor inestimável lá estão armazenados, coleções de um materialismo compulsivo, imposto gradativamente pelos outros. Meros brinquedos de ostentação, de riqueza pobre.

Novamente, essa bolsa denota traços de sua personalidade suscetível, e agora ainda mais seu caráter fica escancarado (talvez seja esse o motivo da costumeira cláusula de inviolabilidade dessas femininas malas sagradas).

O emaranhado de objetos só dá espaço à sua mão que, apressada, separa, agarra, joga, perde e usa, de hora em hora, os estilhaços de sua própria vida despedaçada. Ali, naquela sua confusão organizada, não há fundos, não há limites físicos. Ao olhar, do lado de fora da bolsa, não se vê o fundo. Corrigindo: não há, na verdade, fundo ou fim, aquilo tudo é abstrato. O fundo é realmente negro, protegido por diversos guardiões de ouro, sua capacidade de armazenamento é ilimitada. Um buraco negro de sentimentos.

Conforme usada diariamente, nota-se uma ordem (ou desordem) de acontecimentos – um ciclo vivo natural, como um pedaço físico de seu corpo –  há até uma hierarquia naquela bolsa. Aquilo cresce, se torna forte, e lá ela deposita, gradativamente, pedaços dela mesma. Essas pequenas partes vão se perdendo, vão perdendo o sentido aos poucos. O fim de se mostra necessário.

A renovação da natureza, ali, neste mundo artificial que vos descrevo, também age.

Se faz necessária, agora, uma mudança de valores, sua personalidade sucumbiu totalmente (e novamente). Seu caráter suscetível se transformou. É necessária uma mudança, uma nova bolsa. Mas, agora, uma que tenha mais adornos, capazes de preencher sua alma que se esvaziou.

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