Trabalho, logo ignoro

Não sou um profundo conhecedor da Filosofia moderna, mas gosto particularmente da corrente racionalista. Sabe aquela famosa máxima que você anotou no caderno uma vez e depois usou como status no MSN? “Penso, logo existo” é, em minha opinião, a melhor síntese que três palavras podem construir. Resume uma era e um caminho. Um caminho que seguimos em parte.

Se levássemos ao pé da letra a sentença de René Descartes (não, não é de Sócrates), não restaria muito da humanidade. Curioso é que o pensador francês viveu em um período feudalista, no qual a Igreja era a lei. Ou seja, nada muito diferente do que vivemos hoje no nosso Brasil “laico”. De qualquer forma, credito a culpa do nosso “não pensar” em outro fator mais do que no fanatismo religioso.

Creio que a responsabilidade recai quase que inteiramente na necessidade de trocar seu tempo por dinheiro. Poucos podem dispensar o trabalho como forma de subsistência e fazê-lo por prazer. E, quando se passa metade do seu dia envolvido em levar comida pra casa, fica difícil parar para pensar. Refletir sobre o que quer que seja. Apenas divagar.

O trabalho engrandece o homem? Que me desculpe Max Weber, mas apenas se o produto dele for útil para a sociedade, e não apenas uma forma de gerar capital. O homo faber, aquele que só executa, pouco se distancia dos demais animais irracionais. É por isso que precisamos ser sapiens o tanto quanto possível.

A cegueira imposta pelo fanatismo religioso, pela escravidão assalariada e pelo entretenimento forma uma sociedade de zumbis bem vestidos. Corpos que vagam sem parar. Quando param, é para olhar uma vitrine. Ou para ver quem deixa o reality show nesta noite. Não devemos viver sentados em uma pedra filosofando. Não é disso que falo. Devemos pensar bem no que fazemos com nosso tempo. Se possível, pensar nesse tempo.

Pare, pense, escreva. Produza. Uma linha, uma frase, um desenho. Infelizmente, a maior parte das pessoas não pode fazer isso. Aqueles que trocam 12 horas diárias por 622 reais no fim do mês não têm motivo para tanto. Divagar, portanto, é praticamente um privilégio de classe. E a história comprova isso. A maior parte dos pensadores, em todos os campos do conhecimento, gozavam de boa situação financeira.

A utopia, portanto, reside também na igualdade de livre-pensamento. A censura não se faz necessária quando se ocupa o povo com a sua própria sobrevivência.

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2 comentários sobre “Trabalho, logo ignoro

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