Desabafo

Não queria ter que fazer este post. Na verdade, é deprimente escrever este texto. Mas é necessário. Quem sabe esta mensagem não chega a um dos porcos aos quais é dirigida?

Classe média podre. Carente de caráter. É ela, junto da pequena elite, que cunha verdadeiras barbáries preconceituosas, palavras que ferem tanto quanto lanças. São essas pobres pessoas que destilam seu veneno contra moradores de rua, nordestinos, gente sem teto. A escória que teima em falar merda.

“Olha esse mendigo. Deve ganhar mais que eu. Pra que emprego?”. “Nordestinos burros e vagabundos. Acomodados com o bolsa-família e responsáveis pelo PT no poder”. “Não tem onde morar? Vai trabalhar. Oportunistas criminosos!”. E aí, já vomitou?

A verdade universal é que é fácil criticar o faminto quando não se tem fome. Mas a tentação deles não é pela facilidade. É por um senso patético de “injustiça”. Isso mesmo que você leu. Eles se sentem injustiçados. Eles, que jamais passaram fome desde que conhecem o mundo. Eles que jamais dormiram fora de uma cama. Eles que não sabem o que é ver um filho adoecer porque não tem um pedaço de pão para acalmar o corpo dizimado.

Como pode uma pessoa supostamente sã pensar que alguém fica feliz e “acomodado” com uma ajuda parca do governo? Como podem achar prazeroso viver sem um lar, abandonado à própria sorte? É inconcebível. Causa-me tanto nojo que mal consigo me expressar. Teria que tecer uma tese e ainda assim não teria dito tudo, ainda assim não teria entendido essa parte obscura do ser humano.

Pois eu fico feliz de saber que com parte do meu salário há uma criança tomando um copo de leite neste momento. Fico feliz de saber que há pessoas sendo tiradas da rua. Fico feliz de saber que VIDAS são salvas. Não tantas quanto poderiam ser. Não tantas quanto eu gostaria que fossem. Mas são.

É uma pena que a camada mais instruída da população seja, em geral, a mais ignorante. Um paradoxo desanimador. São pessoas. Como você. São cidadãos resguardados pela Constituição, como você. Você tem que AGRADECER por não precisar usar aquilo que seu dinheiro paga. Não queira enfrentar o SUS. Não queira depender da CDHU.

E, por favor, entendam quem defendo. Não digo para aceitar a corrupção, o desvio, o caixa dois. São pelos indefesos que escrevo. Não defendo a aceitação, o comodismo. Não quero que ninguém viva dizendo “Graças a Deus pelo que tenho. Tem gente que nada tem”. Não quero a falta de ambição. Não quero a culpa por ter mais que a maioria. Nem sinto culpa por ter as condições que tenho. Sinto culpa, isso sim, por não ajudar mais. Por não estender a mão, de alguma forma, a quem o Estado ignora. É por isso que devemos ter culpa.

Pessoas morrem todos os dias. Vidas são ceifadas enquanto você reclama delas. Nem ouvidos elas têm tempo de lhe dar. Seu ódio cego, suas palavras amargas de nada servem. O mundo é tão pior do que seu quintal… você não faz nem ideia.

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5 comentários sobre “Desabafo

  1. Todo mundo critica o Estado, mas a mudança começa no nosso comportamento.
    Será que se saíssemos do nosso mundo “cor de rosa”, não começaríamos a mudança? Reclamar é fácil, mas estender a mão é para poucos.
    Não podemos esquecer que os “esquecidos”, em tese, também possuem os mesmos direitos que qualquer outro cidadão.
    Qual tem sido o seu legado frente aos necessitados?

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    • Thalita, não sei se você entendeu bem a ideia do meu texto, mas é quase essa que você descreveu. Eu quis criticar quem tem muito e ainda ralha com quem não tem nada. E pior: demoniza o Estado por tentar fazer algo por esses últimos.

      Sobre mim, respondi na própria crônica: “Não sinto culpa por ter as condições que tenho. Sinto culpa, isso sim, por não ajudar mais. Por não estender a mão, de alguma forma, a quem o Estado ignora”. Portanto, meu legado ainda é nulo, ou perto disso. E reconheço. E me envergonho. E quero mudar.

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