Ele

Conversavam e riam, apesar do assunto anterior ter sido denso e ela já não saber quantas vezes havia repetido a história, com todos os detalhes que odiava conhecer. Ainda não conseguia fazê-lo sem que a voz ficasse trêmula, mas o choro já podia evitar. Na frente dos outros, ao menos. Foi nessa hora que o namorado da amiga entrou.

Viu ele ali, todo bonitinho e arrumado, para… nada, efetivamente. Não havia uma ocasião ou algo marcado, sequer avisara que iria para lá. Mas lá estava ele, recém saído do banho, ou assim aparentava ser, com um cheiro leve de algum perfume que ela gostou, mas que sabia conhecer um outro que lhe agradava mais. Simplesmente para passar a noite com a namorada, do jeito mais rotineiro possível. Decidiu que era hora de ir embora. Nos primeiros passos pela rua, pensou no que eles dois fariam agora que ela se fora. Coisas de namorados. Deixou então a cabeça vagar por onde evitava sempre que podia.

Ele.

Ao contrário do que se poderia supor, não foi com sofrimento ou dor que seu cérebro processou aqueles pensamentos. Sentia uma coisa estranha, um vazio bom e quase alegre que era a falta dele. Lembrou de todas as vezes em que o recebeu, também para a nobre ocasião de não-fazer-nada, e do quanto era bom tê-lo por perto, só pelo fato de ele estar ali.

Reviveu o sentimento e a certeza que tinha, sem saber quando é que não a tivera: era ele. Com todos os defeitos, sempre foi ele. Não poderia haver, sentia naquele momento (gostava de sempre frisar “naquele momento” pois se achava em constante mudança e, além disso, podia deixá-lo cheio de si demais com algo que fosse tão certo e definitivo como ela sentia que era), ninguém que pudesse ser para ela o que ele havia sido (e ainda o era em alguns momentos de suas confusas reflexões, embora ela nem sempre se sentisse confortável ao admitir). Tinha em sua cabeça muitas cenas de um futuro não tão distante em que ele era protagonista junto a seu lado, mas agora isso tudo não passava de um roteiro mal sucedido, sem nenhum diretor que quisesse filmar.

Tentou por alguns minutos definir o que estava sentindo, buscando palavras bonitas para formar uma frase dessas que todo mundo copia, mas não encontrou. E decidiu ficar só com a definição mais simples que pôde encontrar: sentia saudade.

(Pouco depois já não sabia.)

(Pouco depois, sabia de novo.)

(Mais à frente, dormiu sem sonhar.)

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