Nós

Noite de luz e dia de sono. Preguiça. A paz não vem do corpo cansado, mas da alma cuidada. Do sono velado, do mútuo. Compartilhamos. Amizade que não pede em troca, que doa. E dói. A dor é nossa.

Anda leve, se estende, se deixa cair onde é seguro. Não é força, é jeito; não é charme, é verdade. É amor. Maquiagem? Desconhecemos. Não precisamos, não somos. É transparente. Por nós, somos nós e apenas isso. Ela é linda sem tudo aquilo no rosto. Eu, em pijamas melhor do que em ternos.

A mão dada é automática, não tem pressão nem medo. É sinal de algo maior. O abraço, o beijo, o viver público. Quem hesita é quem não sabe. Quem não sabe é quem não viu. Ou não quer ver.

Nós. É uníssono. É hiato. Independentes, sempre, mas ligados. Presos porque queremos, porque escolhemos. Juntos formamos algo mais forte, somos mais fortes. Crescemos sem ver, pois o passo de um é o passo dos dois. Amarrados por um bem maior. A alegria e a dor são melhores quando divididas.

O ombro que é certo, os braços que não falham. A espera do anoitecer para correr e se deixar levar. Não há melhor coisa que sermos nós. É base, é pilar, desmorona se faltar-nos o outro. É remendado, mas melhorado. Se era barro, virou concreto. Mas espero que seja de diamante. E os tenho na mão. Vem, vamos começar uma vez mais.

É lembrança, não é? É a luz do Sol nos nossos olhos. O que é daquela água límpida sem o seu pé para ver sob ela? O que é daquele vento sem teus cabelos para serem bagunçados? Lá somos nós. Não existe sem nós. Cada passo que demos, cada queda também. Ou apago ou somos nós. Não quero aquela praia, aquele campo, aqueles dias pela metade.

Só quem foi dois pode entender. Cada pedra foi sustentada por duas mãos, não havia um só dia de folga nesta obra. Um lar construído a dois. Por vezes, um trabalhou e o outro observou, aconselhou. Mas nunca houve um dia só. Sem férias, sempre lá. Por isso é difícil dividir. A casa não se sustenta sozinha. Não posso levar nada sem que desabe. É à prova de roubo. Jamais moraremos ali sem o outro.

Mas é triste. Olha triste pra um horizonte incerto. Alta, imponente, mas vazia. Nossa casa é nossa, mas a deixamos. Eu a deixei. E você, sozinha, não podia ficar lá. A casa não deixa. Mas saí por engano, errei. Despenquei, caí de onde estava. Quero voltar, mas ela não me deixa entrar. Sua porta só se abre a duas mãos.

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