Sobre a noite

É um vazio tão grande, tão intenso. É um abismo, um precipício. Uma queda lenta como em gravidade inexistente. Uma queda lenta em um poço de paredes estreitas cobertas de navalhas. O sangue se mistura ao suor.

Mas não há luz sem a noite. O Sol não nasce senão da madrugada. Resplandece da escuridão. É filho do sombrio. Aquece e acalma apenas mentes transtornadas, apenas quem viveu o silêncio do apagar, apenas os insones e perturbados.

Mantenha firme a mente e o corpo a espelhará. Sentirá a pele dilacerar – estamos presos em carne e nervos – mas dará cada vez menos importância. Para onde quer que formos depois daqui, não levaremos este invólucro. Se procura a luz da manhã, deixe para trás o que não se move pelos ares como ela.

Espíritos iluminados ainda encherão as cidades, ainda serão comuns. Não viverei para vê-los, mas estão, um a um, começando sua descida. Sua queda. É solidão, entretanto. Sabemos deles, sabemos que há mais de nós, mas o poço é estreito demais para que desçamos de mãos dadas.

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