Preciso voltar

Volto a escrever com regularidade. Sem cobrança nem necessidade de agradar ninguém, mas com a pouca modéstia de quem quer, ao menos, ser lido. A verdade é que sempre levei certo jeito pra coisa. Tinha uns dez anos quando escrevi meu primeiro “livro”. Um plebeu tentando salvar sua princesa. Criança-clichê, eu. Mas tinha uma parada inusitada: a princesa era porra louca. Bebia, brigava, degolava bandidos tão bem quanto aquele que a salvou.

Depois, me lancei ao meu segundo “romance”. Tratava da vida de um policial fodido, que tinha perdido a grana, os pais, a mulher. Mas ainda tinha uma 38 na cintura. E eu adorava descrever a trajetória das balas, os encontros dos quais ele sempre saía ileso. Era uma visão bem romântica, de fato: um policial honesto. Nessa fase eu já tinha uns 12 anos. Bom, até que eu não comecei tão mal. Ou comecei, pra tal pouca idade.

Passado esse primeiro momento de romancista mirim, eu meio que larguei o papel e a caneta. O computador, que conheci na mesma época, só usava pra ver pornografia e entrar no bate-papo. Me rendi à tecnologia do Pentium 2 e do Nintendinho. Não larguei mais. Ah!, também me rendi às mulheres. Poucas eram como a princesa do meu primeiro best-seller.

Eu sempre fui do tipo “viajandão”, que tinha amigo imaginário. Eu tinha. Ele era bem rápido e eu ficava vendo-o correr ao lado do carro. Pique Usain Bolt, só que magrelo que nem eu. Ainda hoje faço isso às vezes, mas em tom bonachão, do tipo: “Não acredito mais em você, olha como cresci!”. Eu também não consigo ir dormir sem viajar. Me imagino voando, ou rico, ou salvando alguém, ou na idade média dando rolê com meu carro. Provavelmente seria enforcado por bruxaria.

Eu mandava bem nas redações. Lembro da indignação dos meus professores de português: como você pode escrever tão bem e não saber que porra é uma oração subordinada substantiva indireta? Minhas notas acabavam sempre sendo algo perto da média. Eu me fodia nas provas, mas compensava nas redações. Meu palpite? Leitura.

Não sou hipster. Nem poser. Gosto de ler mesmo. Mas eu gosto mais é do cheiro de papel e de ficar mexendo nas páginas. E eu até me irrito com isso às vezes. Mas o fato é que, certa vez, vendi umas paradas que me eram muito caras (sentimentalmente) para comprar um livro que faltava de uma coleção infanto-juvenil. Eu não podia sair de um shopping sem passar na livraria. Sem levar ao menos um gibi. Acho que foi assim que aprendi a escrever sem aprender gramática.

Preciso voltar a escrever. Acho que é como andar de bicicleta: você nunca esquece, mas continua caindo pro resto da vida. Ando numa fase bem tensa, depressiva. Eu tô na merda, em resumo. Na prática, gosto de reclamar e de arrancar as coisas aqui de dentro e jogar no papel. Ou seja: ou sou chato ou ninguém me entende.

É, fazia tempo que não escrevia assim: falando de mim como eu falo tomando uma cerveja, e não tentando uma vaga na ABL. Sei que nunca vou ganhar dinheiro com isso, mas me faz sentir bem. É igual o amor. E o whisky.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s