Sobre a felicidade

Aprendo, a cada dia, a “olhar de cima”. Como bem pontua o texto “Amenizando a Tragédia“, tento alçar voo, me ver pequeno com minhas aflições pequenas. Ser menos ingrato, procurar ver por cima do muro. Abrir a janela e olhar o caos lá fora. Cruel, mas necessário. O sofrimento REAL dos outros é meu calmante. Pois é nele que vejo o reflexo da minha própria mesquinhez.

É utópica a felicidade plena? Sem revolução, é. Sem luta diária, é. Abro a porta de casa, todas as noites, e sobrevivi ao mundo. À violência, ao infortúnio, ao acaso. Abro a porta de casa, todas as noites, e vejo meu senhor, meu grande. Vejo meu menino. Minha família também o fez: resistiu. Ainda assim não sorrio? Ainda assim me sento amargurado em uma mesa farta? Basta!

Não é preciso olhar longe. Não é preciso assistir ao telejornal. O demônio está ao seu lado. A aflição real, a verdadeira dor. Os doentes em leito de pedra, os famintos buscando alimento onde há só indiferença. Passamos rente à infelicidade e cegos seguimos preocupados com nossas pequenezas. Temos centenas de razões para sorrir, mas andamos abraçados à única que nos faz amargos.

Cada qual com sua sina, é verdade. Não vá viver ignorando seu carma, seus revezes. Apenas levante-se! O homem que mais amo neste mundo carrega um tumor em sua cabeça. Sua partida, imprevisível, será minha ruína. E que faço em vez de aproveitar sua presença? Choro pelo que é passageiro, muitas vezes até trivial. Trivial perto do que é assim, grande. Nosso tempo aqui é curto demais.

Se eu gostaria de remediar cada passo em vão? Por certo que sim. Sou humano e aprendiz. Serei até meu último dia. Se gostaria de antever meus erros, evitar o sofrer? Se gostaria de respirar apenas alegria? Não há dúvida. Mas isso, sim, é utópico. O aprendizado é concreto. Emergir de sua própria treva, dissipar as nuvens que acinzentam seu dia. Sofrimento traz sabedoria. Sofrimento ininterrupto traz morte.

Tire do inferno o que precisa e volte para a superfície. Será sábio o bastante para não descer até lá outra vez.

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4 comentários sobre “Sobre a felicidade

  1. “Le suprême bonheur de la vie, c’est la conviction qu’on est aimé ; aimé pour soi -même, disons mieux, aimé malgré soi-même;” – Victor Hugo (em ‘Les misérables‎’).
    Lisonjeado, muito lisonjeado.

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