Abstinência

Lembro-me do riso, da certeza de que nunca seria diferente. “Não sei mais ser de outra”. E assim é. Virei uma extensão de mim mesmo. Uma extensão do eu que era seu. Que ainda é. Muito levará para deixar de ser.

É quebra, baque, rompimento do que pensava ser indissociável. Aprendi a amar somente um coração. Aprendi a beijar apenas uma boca. Aprendi a ouvir, a entender apenas uma voz. Aprendi a sentir apenas um perfume (e o melhor: a falta dele). É como ser de novo criança e engatinhar para se colocar de pé.

Que brilho verei em outro sorriso? Que beleza em outro andar, em outro jeito, em outras opiniões? Quem é que pode arrebatar-me se não sou meu? Se meu pensamento é seu? Sequer vontade tenho de outros braços (que jamais serão seus abraços). Quantos rostos passarão por mim sem que eu lhes dê crédito?

É cruel o coração. Mas penso que é assim que tem de ser. Não se ama com cautela. Se não mergulha, não é. É preciso entregar-se. E é agora que vejo o quanto o fiz. Quem não sente chamará de “costume”. Quem dera. É abstinência. E não há outra droga que me possa curar. É somente o tremor, a insônia, o desespero que se arrasta lento que pode me salvar.

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2 comentários sobre “Abstinência

  1. O tempo passa…
    Mesmo quando isso parece impossível.
    Mesmo quando cada batida do ponteiro dos segundos dói como o sangue pulsando sob um hematoma.
    Passa de modo inconstante, com guinadas estranhas e calmarias arrastadas, mas passa!
    Tudo passa!
    Stephenie Meyer

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