O caminho de cada um: o Dever-Ser

Ao contrário do que foi, e ainda é, exaustivamente pregado, não somos iguais perante a lei, não somos iguais perante os olhos de deus algum.

De acordo com a teoria moral de Nietzsche a estrutura moral ocidental é baseada em uma tábua de valores únicos criados para o ser humano, como se na verdade não tivessem sido criados por ele, e sim PARA ele. Uma moral única e absoluta a qual todos, independente das diferenças, devem adotar como verdadeira.

Mas os valores humanos foram sim criados pela humanidade, mais ainda: os valores são adotados espontaneamente por nós. Somos os que atribuem validade, e que os agregamos em nossas vidas, mesmo que às vezes nossa natureza não se coadune com eles.

Na realidade, esses valores deveriam não ser simplesmente adotados, mas sim, analisados. E, se nos parecessem úteis, caberia a nós adotá-los como se fossem originalmente nossos.

Volto então ao primeiro parágrafo deste texto: os seres humanos não podem ser descritos de uma única forma. Cabe a nós criar nossos próprios valores, ou utilizar valores já criados, mas adotá-los como nossos conscientemente. Deve-se refletir e encontrar a própria consciência. Desse modo nos tornaremos quem realmente somos.

Atingiremos desta forma, o dever-ser, que é independente de convenções. A própria pessoa em seu interior pretende ser única, a natureza humana assim o quer, suplica para deixar livres nossos instintos.

Se o que a pessoa anseia é obedecer, integrar o rebanho e realmente adotar os valores morais e o senso comum, que adote. Se é isso que desperta o sentimento mais elevado, que o faça. Que se torne consciente do que realmente lhe desperta esse sentimento. Mas que o faça por vontade própria. Por reflexão e não por imposição!

Ao interpretar esse modo de busca pelos valores individuais de cada um, uma inevitável pergunta surge: como então saber se a moral adotada por cada indivíduo é realmente a melhor moral, como viver dessa forma? Como esse indivíduo e sua moral única convivem com a questão da responsabilidade perante a sociedade?

Nietzsche apresenta um critério de avaliação moral em que cada um é seu próprio julgador. A própria consciência julga seus valores. Um critério não universal, e sim puramente individual. A teoria do eterno retorno.

O filósofo propõem que a maneira como cada um de nós suporta a possibilidade de realizar as próprias ações infinitas vezes é o critério da avaliação moral de nossas ações.

A partir de seus valores, de suas ações e consequências, você viveria sua vida novamente? Passaria por todas as felicidades e sofrimentos eternamente? Ou mudaria alguma escolha, alguma decisão?

Provavelmente mudaria.

A conclusão é esperada. Não vivemos integralmente da nossa maneira. Infelizmente os valores estão enraizados em nossa sociedade, e nos parece que sem eles não poderíamos sequer sobreviver. Mas não. Podemos, sim, viver de acordo com nosso dever-ser, e enquanto não conseguimos, o importante é buscar a natureza única do seu ser.

“Torna-te quem tu és”.

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5 comentários sobre “O caminho de cada um: o Dever-Ser

  1. Fala ricardooow! Mor cota q nao nos falamos!

    Curti o texto, ja passei pela mesma reflexão estudando Thelema, q nada mais eh q uma mistificação inútil de Nietzsche, mas vale bem como aperitivo ao estudo do “assim falou Zaratustra”…

    A conclusão que cheguei na época foi a seguinte: “se tudo é mera questão de ponto de vista, o importante então é descobrir o que nos alegra e seguir por este caminho.” Mas o importante que notei logo em seguida, é que ser feliz pelo agora é muitas vezes a causa da desgraça alheia, logo, tão importante quanto encontrar o q nos alegra é harmonizar este elemento com nossos objetivos de longo prazo e com a vida em sociedade, a nao ser que o nosso nível de desapego seja grande pra aceitar tudo de bom e ruim com a mesma apatia…

    Com um objetivo final em mente a confusão e a sensação de estar “no meio do redemoinho” que a constatacao do “faz o que tu queres” nos traz (irma gemea do “torna-te quem tu és”),aos poucos desaparece e o segundo passo surge: o de harmonizar o seu Eu com o mundo que te cerca.

    Esse segundo questionamento nos força a moldar e limitar a esfera mental e nos impulsiona á disciplina do pensamento e da ação. Essa sim deixa qualquer um louco! Como conciliar o “eu quero” atual com o “eu quero no futuro” e ambos com o “eu quero pontual” de cada pessoa a nossa volta?

    Citando o Baghavad Gita: “Yoga nao é passividade, mas condução consciente dos pensamentos e ações” é uma obra excelente, mesmo religiosa possui um teor niilista fortíssimo, vale a pena conferir, vai te surpreender com a distorcao que os boçais harekrishna fizeram do teor real do livro. Indico o pocket, nao o comentado pelo Paramahansa…

    Abraçao!

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  2. Oi,
    primeira vez que passo e deixo algo escrito por aqui, acho que em parte essa moral do Nietzsche faz sentido, mas não de forma prática, pois embora cada um possa buscar o seu “eu” você é produto de outras morais, ou seja, não há uma neutralidade possível, além disso somente quando se vive só e digo no sentido, viver e não existir, apenas, é que parece possível você fazer escolhas apenas suas, pautado por usa moral.
    Viver em grupo, em sociedade, impõe que a sua moral também será questionada, que outras pessoas vão intervir nesse processo, fisico ou psicológicamente. Você só pode formar uma moral e buscar alguma coisa de si para si, porque a vida fez de você hoje o que chegou até aqui, não foi a sua moral somente, mas uma cadeia de atos, sensações e impressões que outras coisas e pessoas também te possibilitaram.
    Se hoje você faria escolhas diferentes é porque você viveu uma experiência que moldou aquilo que você julga para si como ” bom ” ou “ruim”. Mas isso não quer dizer que você não faria as coisas da mesma forma.Somos frutos das lágrimas e dos risos que passamos.
    Tem uma frase do Mário Benedetti, que é um escritor uruguaio um dos melhores que já li e num livro dele há uma frase que diz: “Quando se está no turbilhão da vida é impossível se refletir” a vida é assim, a vida é uma dinâmica, uma constância que nunca vai nos levar ao nosso “instinto” porque nós somos um produto daquilo que enxergamos da nossa vida por nossa perspectiva, o verdadeiro eu, pode ser um grande equívoco também, porque só nomeamos aquilo que conhecemos e não nos conhecemos profundamente a ponto de nomearmos nossa moral.
    O meu problema com o bigodudo, assim como a maioria dos filósofos é que eles pensaram muito e pouco viveram ai é que está a questão.

    Passado algum pontos confusos, isso é uma pequena parte do que penso, acho!

    Beijo.

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    • Bem vinda Mayara! Sensacional o comentário, valeu mesmo! =]

      Entendo o que vc quis dizer da prática, aliás, Nietzsche deve ser o único ser humano que realmente seguiu as suas ideias a risca, que foi realmente, um “espírito livre” tanto é que foi ficando maluco e morreu cedo.

      E eu penso o seguinte sobre o pensar demais: talvez se tivesse “vivido mais”, não seria um teórico tão brilhante como foi, teria com certeza produzido menos, e sido menos intenso em suas teorias.

      Acho que a interpretação que vc propôs pode ser dada de maneira mais suave, o “eu” que não escolhe suas morais e uma hierarquia de valores para elas, não encontrará qualquer sossego durante sua existência, sera infeliz e viverá a vida que outros escolheram para ele (a sociedade, como criadora da moral).

      Concordo contigo, os fatores externos são importantíssimos para que ele não só crie seus valores, mas o mais importante nesse tipo de interpretação: que adote-os como seus por livre e espontânea vontade, após reflexão.

      A busca que Nietzsche propõem, pelo que eu entendo, está exatamente ai: em procurar o dever-ser; “conhece-te a ti mesmo”; e durante o processo, adote/crie/pense seus valores com influência de suas alegrias e tristezas, de sua vivência e de sua animalidade/instintos… e só.

      Tem outra coisa que eu me pergunto também (que é uma viagem nietzschiana maluca), e lembrei lendo o que vc escreveu: se a moral externa influencia tanto o indivíduo a ponto de ele nem realmente ter tempo e espaço para conceber uma real noção do seu verdadeiro “eu”, como ficaria a noção de responsabilidade? Como responsabilizar um agente que não tem moral própria e nem consciencia individual de seus atos?

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  3. Well,
    vou me ater só a responsabilidade. A responsabilidade assim como outras coisas como: “culpa”, “pecado”, são formas simbólicas de coerção social, acho que somos ensinados a pensar em algum desses critérios, inclusive, sobre o que é responsabilidade, ou melhor, nem sempre pensamos a respeito desses critérios, mas somos levados a crer que eles existem e que somos “responsáveis ” por eles. Viver como um ser social, impõe que os sujeitos sejam de determinada forma, logo critérios, históricos, políticos, antropológicos, sociais são determinantes para dizer o que os homens em determinado contexto são responsáveis.
    Um sujeito que não tem moral própria ou consciência individual, como seria por exemplo um “Mogli” da vida, será visto como um “não-sujeito”, pertencente aos moldes daquela sociedade, embora inicialmente ele não seja entendido como um membro igual, ele será ensinado a ser igual aos demais, assim transfere-se também critérios como responsabilidade. Eu SEMPRE vou acreditar que o homem é eminentemente um ser social e por isso, ele tem que ser analisado com os outros elementos sociais. jhahahahaha

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