Normal

Não raro me pego pensando no quão “normal” eu sou. No sentido mais superficial da palavra. Não tenho conhecimento suficiente em psicologia para determinar o que é “normalidade”. Falo de ser “mais um”. É um pensamento pouco altruísta, que se aproveita de momentos de baixa auto-estima, mas ainda merece alguma reflexão.

Quem sou eu, afinal? No que chamo a atenção, no que me destaco? O que faz (ou faria) de mim diferente, especial? É bem verdade que quem está dentro do furacão pouco vê sua forma, eu sei. Nas palavras consoladoras de amigos e familiares sempre encontro bons predicativos. Mas e eu? Que penso de mim mesmo? Se eu não fosse eu, o que sentiria por mim?

Me sinto “default” em muitos aspectos. Sou do tipo que não desperta olhares na rua, sejam do sexo oposto ou não. Jeans, tênis e camiseta, uma tatuagem meio escondida, óculos não opcionais, cabelo meio largado, alguma barba por fazer, um livro qualquer na mão e nada muito underground tocando nos fones de ouvido. Não sou vegetariano, não faço mochilão, não sou partidário de nenhuma filosofia política ou religiosa. Gosto de jogar videogame. Pronto, é isso.

Tudo bem, não é SÓ isso. É que às vezes me sinto parte daquele todo cinza que não faz nem deixa acontecer. E é horrível. Não que uma faculdade de filosofia, dreads e passaporte carimbado em meio mundo sejam melhores que eu, não é isso. Mas sinto uma necessidade urgente de fazer alguma coisa estranha, diferente. Talvez a rotina contribua pra esse sentimento. Talvez os mesmos rostos, ruas e prédios me façam sentir assim. De qualquer forma, preciso me mover pra fora do meu aquário.

Uma das minhas grandes decepções é não conseguir fazer aquele clássico avatar do South Park. Já tentaram? O meu sai tão normal que me dá raiva. Dá quase pra colocar um “random” ali que sou eu. É besteira, mas faz parte do pacote depressivo de ser mais uma ovelha branca. É das negras que o mundo precisa.

No fim sempre acabo me acalmando. Penso em quem me rodeia e nos corações que já conquistei. Não é questão de erguer troféus, é de pensar: “Pô, aquela menina era legal. Não se acha por aí. E ela gostava de mim”. Ou também: “Esse cara é foda. E é meu amigo, me quer por perto”. Depois disso fico mais tranquilo, me espremo no metrô e volto pra casa. Afinal, tem arroz, bife e batata frita me esperando.

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6 comentários sobre “Normal

  1. E, quer saber uma coisa? Eu nunca achei vc muito normal… hehe!
    Bela crônica!
    Pense no conselho de um ídolo da minha época: “A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal… (Raul Seixas).
    Ah… e permita-me uma correção: às vezes há algo mais que arroz, bife e batata frita… hahahaha

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  2. Perdoe-me, mas vou alongar-me em mais um comentário e sugestão:
    “Deus me livre de ser normal”!
    A ‘normalidade’ em que vivemos é constantemente alimentada por aquilo que nos aliena de nós!
    C/ isso, perdemos a noção das coisas, do sentido de nossa vida, deixando que o mundo interfira muito mais do que deveria…
    A isso o Prof. José Hermógenes de Andrade Filho dá o nome de “normose”.
    “Quando desistimos da nossa singularidade para descansar no comportamento de grupo, aí está a origem do mal. O grupo, para mim, é o mal”. Esta frase é do psicanalista e romancista Contardo Calligaris.
    Hermógenes e Calligaris nos estimulam a pensar em algo que vale a pena, que um chamou de “normose” e o outro de “comportamento de grupo”.
    Sugiro a leitura do artigo “A doença de ser normal” da premiadíssima jornalista, escritora e documentarista Eliane Brum :
    http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI249779-15230,00.html

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