Ser inteiro

“Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dóceis às modas e compromissos”.

São de Carlos Drummond de Andrade essas palavras. Duras, incisivas contra o “poeta de ocasião”, aquele que não se entrega à arte de todo. E pode ser prepotência minha, que faço exatamente o perfil criticado por ele, querer analisar sua afirmação. Mas vamos à “audácia” (que ele apreciaria).

Aceito o fato de que não é possível ser memorável, realmente bom, se não há dedicação integral. É verdade que só é poeta aquele que se entrega diariamente à palavra. Assim como é certo que só é músico aquele que vive da música. Lembre-se: falo de pessoas memoráveis, historicamente relevantes para uma sociedade, uma era.

A crítica de Drummond é precisa e se reflete triste em nossos dias. Ser “multi-tarefa” parece ganhar importância, ares de “obrigatoriedade” até. Acabamos não sendo nada por inteiro, acabamos por ler, escrever, produzir, tocar, pintar, desenhar, enfim, tudo fazer de forma razoável, aceitável. Quando foi que perdemos a concentração? O afinco?

Tenho a ciência de que sou mais um desses “faz-tudo” modernos. Sei que não sou um escritor, um jornalista, um gamer, um leitor, não sou nada por inteiro. E constantemente me sinto mal por isso. Por ter chegado aqui sendo uma pessoa “mediana” em tudo. Morrerei com esse estigma? De não ter deixado nada realmente importante para as gerações vindouras?

Há, contudo, uma defesa. Não só em meu nome, mas em nome de todos que se abrigam embaixo da asa capitalista, do sistema que deixa escapar muito poucos. Como seremos inteiros? Como posso ser um escritor – sonho de menino, aliás – se preciso do meu trabalho? Se tenho contas que não se interessam pelo que tenho a dizer? É ato de extrema coragem se desligar das obrigações que nos prendem o corpo e a mente. É ato de extrema coragem tentar ser inteiro.

Penso que não podemos nos podar, deixar de fazer porque já fizeram, e melhor. Mas já pensei assim. Por que estar aqui, escrevendo a vocês, se vocês têm Drummond, Machado, Guimarães, Eça, Pessoa, Camões, Graciliano? Por que me leriam se há quem tenha dedicado a vida ao que eu dedico algumas horas por dia?

Deixo meu apreço por quem tenta ser inteiro. Deixo maior apreço ainda a quem foi inteiro. Mas deixo, sobretudo, meu consolo a quem, como eu, não pode ou não consegue ser inteiro. Que sejamos metade, então! Mas jamais vazio, traço, negação.

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