Angústia

Sem anunciar sua chegada, eis que ela aparece. Abre a porta bruscamente, entra sem pedir licença e se acomoda no cômodo mais bonito da casa; nem ao menos olha ao redor. Senta no sofá, tira seus sapatos, descansa os pés na mesa de centro e acende um charuto. Sim, essa senhora fuma charuto.

O hospedeiro, educado que é, apesar de achar a senhora muito petulante, oferece um chá para a velha senhora. Ela, sem ao menos olhá-lo, recusa. Pede um café forte e um whisky ao rapaz.

Enquanto prepara as bebidas para a senhora, o hospedeiro pensa em mandá-la embora, quando retorna à sala oferece as bebidas, e tenta…

Não consegue. Não consegue mandar a velha angústia embora. Por algum motivo, ela o domina, apesar de ter plena consciência que sua presença é extremamente desagradável e inútil, ele não consegue expulsá-la. Sente algum tipo de compaixão por aquela senhora, como se na realidade ela fizesse parte dele, uma parte viva e autônoma dele, da qual não tem controle algum.

Então, decide: “Vamos ver o que essa velha tem a dizer”. Senta-se no outro sofá, acende também um charuto e encara a mulher.

A conversa dura algumas horas, eles dão risadas juntos, choram, gritam, se ofendem. Ao final ela vai embora satisfeita: “Como esse rapaz é inocente, me dá tudo que preciso sempre que lhe visito e insiste em dizer que não se sente bem com a minha presença. Vai entender… Na próxima semana lhe farei outra visita, com toda certeza”.

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