Licor de anis e unhas pintadas

O sangue escorreu pelas paredes, deslizou pela pintura branca, gélida. Respingos se assentam no chão e o cheiro de carne morta, urina e fezes, já que as vítimas não se contiveram diante dos calafrios da morte, toma conta do ar daquele pequeno dormitório.

Pedaços de dedos e unhas soltas pintadas de preto, arrancadas previamente das vítimas, se espalham no tapete vinho. Na cama, uma delas descansa o sono da morte com os olhos abertos voltados para a porta. Seu abdômen aberto revela seus segredos fisiológicos mais profundos, seu intestino, seus rins, seu útero, um feto.

A outra jaz sentada, nua, logo abaixo da janela, com as palmas das mãos viradas para cima, sem os dedos. Uma poça de sangue envolve suas coxas, tal qual uma área demarcada para sua morte. Sua cabeça, aberta na fronte por um golpe de pé-de-cabra certeiro no olho direito, resultando em um rasgo do olho atingido até a orelha do mesmo lado, denuncia o vazio de seu crânio, a massa cinzenta escorreu pelo seu corpo e se juntou as suas fezes próximas as suas nádegas, as mesmas que exalam o desagradável odor do primeiro parágrafo.

Na mesa próxima à cama, há uma garrafa de licor de anis, três copos vazios com marcas de batom nas bordas, e um bilhete:

“Filhas da vaidade, esposas do luxo, amantes do tédio, mães do fracasso, viúvas de si mesmas; nenhum ensinamento é suficiente, nenhuma esperança é o bastante, deixo aqui minha contribuição ao gênero”.

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