Quando nasci (de novo)

Minha mãe vive dizendo que sou uma “benção”. Ela é bem suspeita, é verdade, mas tem razão. Pelo menos em um aspecto: é um “mini-milagre” eu estar vivo. Ainda recém-nascido quase fui empacotado por uma doença comum, que a maioria de vocês já teve: icterícia. É, essa mesmo da pele amarela e dos banhos de sol.

A icterícia (ou hiperbilirrubinemia, pro pessoal que fala bonito) é causada pelo excesso de bilirrubina, encontrada na bile. Há algumas causas para o aparecimento dessa patologia nos carinhas-de-joelho. A mais comum é a imaturidade do fígado, que não consegue processar a substância em ritmo normal.

Normalmente, o problema se resolve sozinho ou com um tratamento fototerápico – aquele das lâmpadas que não deixam os coitados dormirem. Mas, em uma minoria de casos – olha eu aí! –, a icterícia não cede e os níveis de bilirrubina crescem sem trégua. “E daí?”, você me pergunta. E daí que as consequências são mais do que uma pele amarela. A parada pode ficar séria. Se não tratada, a doença pode deixar sequelas neurológicas irreversíveis e levar à morte.

Confesso que não sei exatamente a causa da minha icterícia. Só sei que não foi por incompatibilidade sanguínea (quando a mãe é Rh negativo e o filho, positivo). Meus pais também não se lembram, estavam ocupados demais tentando salvar minha vida. Acredito que tenha sido uma combinação entre fígado zuão imaturo e produção excessiva de bilirrubina. O que importa é: eu estava morrendo.

Lá nos anos 1990, a Neomater, em São Bernardo do Campo, era tida como uma boa maternidade. E foi pra lá que meus pais correram quando a bolsa estourou e começou a sujar o tapete da sala. Mas, quando o pequeno Thyago ficou mal e precisou de um tratamento drástico, ninguém apareceu. E, quando apareceu o cirurgião, não havia o sangue necessário. Nem preciso dizer que meu pai quebrou tudo por lá. “Vamos chamar a polícia!”, disseram. Não foi preciso. Ele mesmo chamou.

Mas não é à PM que devo a tardia eficiência do hospital. Graças a um conhecido da família, então muito importante na área médica, é que eles resolveram se coçar e tirar meu pezinho da cova. Como? Ah!, agora é que vem a melhor parte. Já que nenhum tratamento convencional deu certo, a única saída era trocar todo o sangue do meu corpo. Tudo bem que não devia ser muito mais que 300 ml, mas trata-se de uma operação perigosa.

Eis que chegou a hora da exsanguineotransfusão(!). Em recém-nascidos ela é especialmente delicada pela falta de veias aparentes para o procedimento. Tiveram que perfurar minha jugular (a cicatriz é discreta, mas está aqui). Não sei como minha mãe não teve outro filho só de nervoso. Já meu pai ficou grisalho naquele dia mesmo.

Fiquei sabendo dessa história há muitos anos, quando já tinha idade para entender alguma coisa da vida. Mas só recentemente é que comecei a viajar nos “e se”. E se eu não tivesse esse “amigo da família”? E se o sangue não tivesse chegado? E se a operação tivesse sido um fracasso – como poderia, de fato, ter sido? Eu mal teria começado a vida. É meio insano pensar assim, mas me ajuda a dar certo valor pra essa existência, ainda que ela se faça de muitas quedas.

No fim, a vida é feita de mini-milagres todos os dias. Situações que evitamos por sair 30 minutos mais tarde do trabalho, por mudar o trajeto, por ficar preso no metrô quebrado. Nunca se sabe quando aquele “azar” vem pra tirar o seu da reta. Como diria Fernando Pessoa, de forma mais polida que eu: “Inda que mágoa, é vida!”.

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2 comentários sobre “Quando nasci (de novo)

  1. Foi nesse dia que eu comecei a ficar… não grisalho, mas careca !
    Já tínhamos (eu e sua mãe) decidido não sair da maternidade sem levar vc, em que pese a insistência da administração p/ que liberássemos o apartamento.
    Foram necessários uns berros, literalmente um chute na mesa do Diretor Clínico da Maternidade (quebrou a mesa) e um telefonema p/ a PM, mas valeu… De repente, não mais que de repente, apareceram o cirurgião e o sangue necessário p/ o procedimento (arriscadíssimo, mas única possibilidade).
    E aí está vc, inteirinho p/ contar a história…. bem, falta um pedacinho: o ‘apêndice’, retirado numa outra cirurgia de urgência… mas aí já é outra história… hahahah.

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