Conselho

Muitas coisas mudaram com a recente perda que tive. Opiniões, hábitos, vontades, peso, apetite. Quero falar de uma dessas coisas. Algo que muito me entristecia, mas que agora me abre um buraco no peito, me atormenta, me martiriza: as brigas e discussões inúteis.

Admito que fui a causa da maior parte dos desentendimentos no meu último relacionamento. Me faltava maturidade. Não que agora eu seja um poço de sabedoria, mas estou mais firme. Perdi muito tempo em brigas sem sentido, em orgulho, em besteiras. E, mais que tempo, perdi saúde, perdi paz. E fiz minha então menina também perder.

Não há saída. Concluí que só damos valor ao que temos quando não temos mais, que só vemos importância quando já não está mais ao alcance das mãos. É irreparável. O ser humano é assim. Eu me arrependo amargamente de toda a minha infantilidade. Sei que aprendi com a perda e que serei melhor a partir de agora, mas e as chagas? E as cicatrizes do passado? Você aí que está lendo pode dar mais certo que eu.

Queria escrever essas palavras como uma carta de conselho, de aviso a quem comete o mesmo erro que cometi. Mas sei que de pouco adianta. Quando era eu lá, no meio da tempestade (em copo d’água), não dei ouvidos a quem tentou me ajudar. Por que você daria? Bom, talvez vendo a ruína em que me encontro você queira fugir de cair no mesmo buraco e me fazer companhia. Assim espero.

Existem pessoas mais estudadas que eu para falar do aspecto teórico da coisa. Estou aqui como alguém que viveu esse fel, esse azedo. Depois de perder a pessoa que amo, fiquei mais sensível ao que se passa ao me redor, ao amor das outras pessoas. Hoje, quando vejo casais brigando, me sinto imensamente triste. Sinto algo ruim, mesmo que nada tenha a ver comigo. Me dá uma vontade de levantar, atravessar o vagão do metrô e dar uma bronca nos dois. Chacoalhar ambos pelo colarinho e perguntar: “Pra que essa merda? Querem acabar como eu?”.

É bem provável que eu nunca mais possa me retratar com a pessoa que amo. Que venhamos a ficar, nós dois, com esse amargor na boca, essas lembranças insalubres. Isso me põe a chorar constantemente, é verdade. Mas talvez eu possa ajudar amigos, familiares ou até mesmo desconhecidos. Talvez eu possa usar minha dor para evitar que outros se juntem a mim nessa caravana pútrida. Meu desejo é afastar vocês de trilhar o mesmo caminho: o do fracasso.

Por isso, digo: exercite a tolerância. Aprenda a ceder, a ser resiliente. A esmagadora maioria das brigas que temos em um relacionamento são por trivialidades, com as quais não deveríamos perder mais que 5 minutos. Ou mesmo ignorar, passar por cima. Não falo de engolir sapo o tempo todo. Aí você está com a pessoa errada. Falo de humildade, de companheirismo. De não ver um inimigo onde há um parceiro.

Eu aprendi essa lição tarde demais. Eu aprendi essa lição na porrada. Talvez você possa sofrer menos que eu. Acredite: essa pessoa que está aí do seu lado, se você a ama de verdade, fará tanta falta se você a perder que você seria capaz de dar os dois rins pra tê-la de volta.

Aceita os meus, minha menina?

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Um comentário sobre “Conselho

  1. Infelizmente aprendemos muito mais com as perdas do que com os ganhos!
    Que as cicatrizes sejam apenas para olharmos e meditarmos antes de agirmos novamente.
    Termos a percepção de quando o sinal de alerta acende, faz com que os relacionamentos se tornem muito mais agradáveis e respeitosos.
    Os cacos que sobram devem ser juntados para a formação de um vaso muito mais bonito. O luto sempre será necessário, mas quando ele passa somos libertos da tristeza e angustia que nos aprisiona num passado que não volta mais.
    Com isso, o novo vaso poderá adornar outros ambientes.

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