Volta ao verso

Passei a ler poesia com mais afinco recentemente. Nunca fui um leitor assíduo do gênero. A maior parte do que li até hoje foi no período escolar, certamente. Na época, via com desdém e certo tédio grandes nomes como Camões, Pessoa, Neruda, Goethe, Shakespeare. Poucos são os que se apaixonam por poesia logo na adolescência. Ao menos eu não conheço muita gente que esperava ansiosa pela “prova do livro”. E eu não era diferente. Minha preferência sempre foi pela ficção, principalmente relacionada à história humana. E eis que aos 20 e poucos anos eu finalmente entendi que poesia É história humana.

Nos últimos três meses peguei dois livros que já juntavam poeira aqui na estante para ver se eu tomava gosto. O primeiro foi “Júbilo, memória, noviciado da paixão”, de Hilda Hilst. O outro foi “Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade. E hoje começo a leitura do terceiro: “Lira dos Vinte Anos”, Álvares de Azevedo. Cheiro de depressão e ideias suicidas no ar? Que isso, impressão sua! Mas é na tristeza que você compreende os tristes. Os livros que citei acima estão comigo há muito e eu já tinha tentado pegá-los pra ler. Não consegui. Parecia outro idioma. É curioso como o estado de espírito influencia a leitura.

Sobre Hilda: não conhecia nada dela. Nada mesmo. Meu pai se espantou: “Como assim não sabe quem ela é? É a Clarice Lispector desbocada!”. Confesso que nunca vi nada, nem uma citação nas redes sociais. Melhor assim, na verdade. Pego preconceito fácil de certos autores citados à exaustão. É um erro, sei disso, mas não tenho a mínima vontade de ler Caio Fernando Abreu ou Charles Bukowski. Felizmente, Hilda não se encaixa no esteriótipo das “frases bonitinhas”. O negócio ali é pesado. Tão pesado que eu, que estou na merda, me senti mal por ela.

“Júbilo, memória, noviciado da paixão” faz parte do lado, digamos, ultra-romântico de Hilda. E mesmo assim já se vê aquele “quê” erótico pelo qual ela é famosa. O grande (e filho da puta) amor dela, Túlio, é esquivo e não está na relação como deveria. Ou como ela gostaria. E ela se desfaz, se reconstrói, se desfaz de novo. É lindo, mas absurdamente melancólico. Te faz crescer, ao mesmo tempo, uma raiva do cara e uma admiração por Hilda. Admiração, não compaixão. Em momento algum senti que ela esmorecia, que era fraca. Pelo contrário: era dura, forte, grande. E, claro, apaixonante. O que mais você poderia querer dela, Túlio? Hein, seu cretino?

Li com voracidade os lamentos de Hilda. Foi libertador, me senti compreendido e compreensivo. Recomendo a leitura, claro, mas com uma ressalva: esteja preparado para ler duas, três vezes cada verso. E se você não estiver deprimido, terá de ler quatro, cinco vezes. Já a leitura de Drummond foi menos traumática. Pelo menos em “Rosa do Povo” ele parece não usar uma escrita tão complexa. Senti como se conversasse com o poeta. Com Hilda eu me senti um espectador, me via sentado de frente a um palco no qual ela se contorcia em sangue e suor. E eu aplaudia.

“Rosa do Povo” vem dos tempos de escola. Ao pegar pra ler seriamente até lembrei de algumas estrofes e das saudosas aulas de português (não fui irônico, juro). Dizem os críticos que é uma das obras mais fortes de Drummond. Na época em que foi escrita, o mundo enfrentava a Segunda Guerra Mundial, e o poeta traz uma veia ideológica muito forte, fala muito da guerra, do medo, da vida na cidade, do cotidiano, do “tempo de partido,/ tempo de homens partidos”. São 55 poemas que não mergulham em um tema só, como no caso de Hilda, mas traçam um desenho de uma época e do próprio autor, que se mostra calejado, menos utópico, maduro.

Um ponto curioso (e preocupante) é notar como a “náusea” que Drummond sentia há 70 anos cabe perfeitamente ao presente, a nós. Ele tem asco da mediocridade, da rotina, da vida cinza, da cegueira capitalista. É com espanto e prazer que ele conta o episódio em que se sentou na rua da metrópole brasiliense, às cinco da tarde, para admirar uma flor audaciosa, solitária: “Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto./ Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu”.

Com esses dois livros lidos, já posso garantir: sou fã de poesia. Fã, não entendedor. Se juntar tudo que li até hoje de poesia não deve dar nem dez livros. Tenho ainda um caminho muito grande a percorrer. Isso se eu não cortar os pulsos lendo Álvares de Azevedo, que promete ser um desafio para a minha integridade mental.

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7 comentários sobre “Volta ao verso

  1. BUKOWISKI é o cara, sensacional, não tenha preconceitos! Leia-o!!!!!!!!!
    o Bukowiski vai muito mais a fundo que a Hilda por exemplo, porque a lírica dele é a própria contradiçao da vida, a miséria e a bonança. Sem deculpas Bukowski é indispensável ( aliás eu acho que muitos autores são indispensáveis)uhassuhahuashu
    o Caio Fernando Abreu é bom, tá banal na merda do facebook. Mas vale a pena!

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    • Imagino que deva ser bom mesmo. Até tenho vontade de conhecer, mas sempre acho outro autor pra colocar na frente. É um péssimo (e patético) hábito esse de se afastar do que é “popular”, como se eu tivesse mais discernimento que os demais e soubesse o que é bom ou ruim. Mas estou tentando mudar, juro :)

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    • Ah, mas aí você já está falando de outra coisa. “Popular” tem seus níveis e suas esferas. Nas redes sociais, Bukowski está no mural de 11 em cada 10 mulheres, mas na rua nunca vi ninguém com um livro dele na mão.

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  2. husahuashuashusahu
    Opa, as meninas que citam Bukowski podem ou não o terem lido, aliás, como o Ricardo falou, acho o Velho Safado bem desconhecido das chicas, a ponto de ser citado em muitos murais, se fosse Clarice Lispector concordaria contigo. Outra coisa entra ai: Muitas citações em facebook, são atribuidas a autores que sequer a escreveram.
    Sem substimar os leitores, mas muita gente utiliza somente citações sem ter ao menos lido um livro, conto, texto, do referido autor.

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    • Sim, COM TODA CERTEZA essas chicas que citam Bukowski nunca leram um livro dele sequer. Assim como as pessoas que citam Lispector. Eu sei que o cara não é popular, sei que ele não é um Paulo Coelho (ew!). Mas suas citações são jogadas tantas e tantas vezes na minha cara diariamente que eu fico meio brochado de ir atrás.

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