Ainda sente?

A morte do jovem Victor Deppman foi o que faltava para eu escrever este post. Se você ainda não sabe, ele tinha 19 anos e foi assassinado na porta de casa, com um tiro na cabeça. Por quê? Porque o homicida quis. O rapaz não reagiu, entregou celular e carteira. Crueldade, pura e simples.

O que tenho a dizer sobre o caso, a despeito de toda a minha indignação e fúria, não tem a ver com legislação, com justiça, com redução da maioridade penal. Tenho opiniões relativamente sólidas sobre esses assuntos e até poderia exprimi-las aqui, mas meu objetivo é outro. Quero falar sobre e para as “pessoas de bem”.

É verdade que sou bastante emotivo. Confesso que choro com coisas “banais” como o final de “Friends”, pedidos de casamento, histórias de superação, vídeos do “X-Factor”. Imagine como não me emociono com situações como a do Victor, do David (ciclista atropelado que teve o braço amputado), do João Hélio (6 anos, arrastado até a morte preso ao cinto do carro) ou com Santa Maria. Choro e não tenho vergonha de admiti-lo. Aliás, quem deveria se constranger é quem se mantém indiferente.

Há muita mobilização em casos como os que citei acima. Eles ganham rapidamente as redes sociais e a mídia tradicional, mas logo somem. Todos somem. Eloá é um fantasma do que já foi indignação. Isabella? Quem é essa? Mas é natural. A vida de um não vale mais do que a de outro. É normal que se esqueça dessas tragédias porque a todo momento outras nascem do seio do ódio. O que não é normal é assistir Datena comendo Doritos, com olhos estáticos e vazios.

Temo que as pessoas não mais se comovam ao ver um corpo estirado na rua. Tenho pavor de imaginar que poucos se sintam embrulhados e aturdidos com a crueldade. A passividade mental é a pior de todas. Como “cidadão comum”, eu nada tenho a fazer para diminuir a criminalidade de forma direta. Não tenho treinamento nem equipamento para isso. Tampouco meu escritório é em Brasília e meu patrão o povo. As únicas armas que empunho são a voz, o voto e a vontade.

Vivemos um tempo de morte física e psíquica. Como assim você ficou sabendo do Victor e “preferiu não saber mais”? Será que eu sou corvo de mau agouro que busca a tristeza e a desgraça? Eu é que estou errado em não evitar o noticiário? Não assisto programas policiais, não corro atrás de tragédias. Só não fujo delas. Que tipo de mente doentia não se emociona com a vida de um jovem de 19 anos escorrendo pelo ralo, em vermelho? “Não é comigo então não dói”?

Estou transtornado não só com o aumento da violência, mas com o da frieza. Não são poucas as pessoas que me rodeiam que já estão “anestesiadas” (para usar um eufemismo) com a barbárie. Pelo menos até que ela bata à sua porta. Até que ela deixe seu filho inerte no asfalto. Aí vem o despertar, não é? Aí você entende a dor alheia.

Confesso, porém, que não tenho ido a passeatas ou manifestações ou protocolado abaixo-assinado no Avaaz. Não sei ao certo como ajudar. Vejo com alguma desconfiança certas iniciativas, ONGs, protestos. Mas ao menos vejo. Participo se acho que devo. Colaboro se acho que será útil.

Este é o desabafo de alguém que ainda sente. Esta é uma carta à pedra que muitos chamam de coração. Afinal, o que nos resta? Se nem trememos ao ver a morte de um inocente, o que nos resta? A bestialidade. Não somos tão animais quanto aqueles que tiram vidas, mas achar banal que o façam só mostra que já perdemos as nossas.

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7 comentários sobre “Ainda sente?

    • Belíssimo texto. Muito bom mesmo. É exatamente o que sinto, o que vejo e o passo. Não sou melhor do que ninguém. Pra (quase) todos os efeitos, sou também bastante acomodado.

      Sobre os pontos que citei, mas não elucidei: seria necessário outro texto para dar conta da minha opinião. Mas, de forma resumida: não, não sou a favor da redução da maioridade penal. Conheço minimamente a situação do sistema carcerário brasileiro e sei que ele, mais do que não ter espaço, não tem estrutura. Não educa, não inclui, não recupera, não pune. A cadeia no Brasil (há pouquíssimas exceções) cozinha os detentos para mandá-los de volta às ruas mais cruéis.

      É preciso um debate, contudo. A grande maioria dos países desenvolvidos – cuja participação de menores nos índices de violência é muito menor que a nossa – tem idades penais baixíssimas: nos EUA é entre 6 e 12 anos (varia entre os estados), na Inglaterra é 10 anos, França é 13, Itália é 14. Por que nesses lugares dá certo punir “crianças” e aqui não? Falta o que para nós? Enfim, é preciso discutir isso com honestidade e mente aberta.

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  1. Primeiro, parabéns por duas coisas: pensar que a redução da menoridade penal não irá resolver o problema da violência.É um tema complexo, porque são muitos vieses que desembocam, naquilo que chamamos de “medidas socioeducativas”. Em segundo, porque você entende ser necessário um debate honesto e de mente aberta. ( o que nesses momentos de “catarse” coletiva são substituídos por comentários hipócritas e ignorantes na maioria das vezes).

    Mas a segunda parte me deixa intrigada, por uma questão muito, ou melhor por várias questões, mas que podem se resumir em uma só: porque punir? Porque dizer que os outros países acertam quando punem crianças?

    ps: Acho complicado utilizar os EUA como parâmetro, lá a política criminal é bem diferente do Brasil. Os procedimentos investigativos, judiciais, o tal Estado “policial”.

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    • A verdade é que a punição se dá quando todo o resto falhou, como bem sabemos. Educação, família, condições plenas de estudo, diversão, enfim, uma infância decente. Entendo que esses países contam com menor índice de menores infratores principalmente por esses fatores. A idade penal reduzida pouco colabora na diminuição da criminalidade.

      No entanto, temos que reconhecer o “efeito exemplo” e sua eficácia. Aqui, os jovens sabem que “podem” cometer crimes até os 17 anos. Assim como os praticantes de crimes hediondos sabem que não irão para a cadeira elétrica. A punição, apesar de não fazer justiça ou consertar o erro, sempre foi instrumento de “reflexão” para aqueles que pensam em trilhar o mesmo caminho. Você acha que a “criança” de 17 anos que matou o Victor teria atirado se soubesse que poderia pegar 30 anos de reclusão?

      É complicado mesmo. Eu não acredito no Estado do castigo, acredito no Estado da educação. Mas o castigo me parece necessário. Há casos e casos, há muitos quesitos a serem avaliados para definir se aquela pessoa (menor de idade ou não) merece ser punida (e de que forma). Existem pessoas doentes (psicóticas), existem pessoas que agem sob efeito de drogas, existem pessoas cruéis. Porém, acima de tudo, existem pessoas que não ferem outras pessoas. E o Estado tem abandonado a todos. O dia que se entender que havendo condições mínimas de vida não é necessária a proteção (nem a punição), talvez as coisas mudem.

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  2. A pena em sua origem tem duas finalidades: o caráter preventivo que é o que você justifica, como meio inibidor aos demais, e o segundo é retributivo de forma positiva, para que o apenado seja reinserido no meio social. Você acha que se as penas fossem mais graves, duras, elas sujeitariam as pessoas a refletir sobre suas ações? A pena e as masmorras chamadas de “prisões e fundações casa” mostram que não se deve cometer infrações e delitos?

    E sim, acho que o rapaz que atirou no Vitor se soubesse que poderia pegar uma pena de 30 anos o faria do mesmo jeito. Não imagino que ele teria agido de forma diversa.

    Você quer mesmo ficar chocado?
    Apenas 3% dos homicídios no Brasil se tornam investigações policiais, com desfecho processual de sentença. Ou seja, a cadeia tem se tornado um amontoado de desgraçados em sua maioria, sem servir a proteção daquilo que compreendo como o maior bem, que é a própria vida. Não defendo nenhum dos lados, mas acho que os problemas SÃO muito maiores. O caso do Vitor infelizmente vai entrar pra estatística “abonada” dos 3%.

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    • Penas mais duras não levariam à reflexão, em minha opinião. Apenas à inibição, à prevenção. Ninguém reflete sem condições humanas mínimas. “Ah, mas eles merecem!”. Talvez até mereçam aquela insalubridade. Mas ninguém enxerga que NÃO resolve? Você só cria criminosos mais perversos. “Tem pena? Leva pra casa!”. Não tenho pena. Nenhuma mesmo. Mas não quero que aquele cara saia de lá para matar mais. Se for pra isso, pra que cadeia? Coloque todos enfileirados em um muro e peça a autorização do Führer para disparar.

      É realmente uma discussão complexa por haver tantos pontos a serem considerados. Eu ainda acredito no ser humano. Eu ainda acredito que a maioria dos bandidos não gostaria de ser bandido. Pelo menos não a princípio. Eu ainda acredito que o assassino do Victor tem os mesmos órgãos internos e o mesmo sangue que eu, ele só não teve a educação e as oportunidades que tive. Mas também acredito que não pode haver complacência. Não se pode ser passivo. De fato é um quebra-cabeça que vai levar muito tempo para ser resolvido. E, nesse tempo, vidas vão sendo ceifadas.

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