Os 20 e poucos anos

Lembro-me de ter lido, quando adolescente, muita coisa relacionada aos “20 e poucos anos”. Achava uma grande besteira. Pensava: “Como alguém pode ficar tão indeciso, ter tantas dúvidas? A vida não é um caminho em linha reta?”. Só para variar, estava completamente enganado. Os 20 e poucos anos chegaram. E bem cruéis.

Não é a única fase de transição que temos na vida, eu sei. Deixar a infância e encarar a puberdade também não é fácil. Especialmente para alguém como eu, que acumulava todos os fenótipos necessários para sofrer intenso bullying. Óculos, espinhas, aparelho, 1.83m e 65kg. É, você pode imaginar. Mas sobrevivi, entre divãs e Prozacs. Também não será fácil deixar de ser “jovem” para assumir casa, filhos, casamento. No fundo, nossa vida é um eterno “eu era feliz e não sabia”.

Acho que a ficha cai quando você termina a faculdade. Isso se você fizer parte, como eu, da galera que entra aos 17 e sai aos 21. A verdade é: enquanto está se mexendo, você não pensa. É por isso que muita gente se joga em mestrados, em pós-graduações sem nem saber direito se é aquilo que quer. Eu fiz isso, aliás. E tranquei o curso depois de 8 meses. Entendi, ainda que tardiamente, que não se deve fazer nada por currículo. Se aquilo não tiver significado pra você, não terá pra sua empresa, pro mercado.

Ando assustado com a velocidade e a gravidade das mudanças que estão acontecendo na minha cabeça. Ao mesmo que tempo que perdi o encanto por muita coisa, abri os olhos para o brilho de outras. Deixei de sonhar com altos salários, carros, imóveis, sucesso profissional. Penso que nada disso é exatamente necessário. E mesmo que for, só virá se eu estiver bem comigo mesmo. Realizado internamente, intelectualmente. Eu falei que estava assustado…

Vejo todos correndo feito baratas tontas em busca de ascensão, de promoção, de reconhecimento. Ainda que eu tenha entrado num caminho sem volta (trabalhar para comer), me recuso a viver para ganhar dinheiro. Ganho dinheiro para viver. E bem sabemos que não é preciso muito. Entenda: não é que eu não tenha mais ambição. Eu só deixei de acreditar que minha vida gira em torno do que eu tenho. Ou do que eu posso ter.

Sabe como me imagino daqui uns anos? Num apartamento, pequeno, mas com a minha cara, com meus livros, meus quadros (nerds), meus filmes, meus CDs, minhas incontáveis HQs, meu gato (!). Um carro se for preciso, se eu não puder viver de transporte público. E tudo isso bem longe de São Paulo. Não sei onde, mas longe. É também por isso que tenho viajado com mais frequência. Tenho pouco tempo para decidir onde vou amarrar meu jegue.

Não quero, contudo, me acomodar. Só deixei de gastar energia com o que eu não acredito. MBA em Gestão de Negócios vai me dar uma guinada na carreira? Foda-se! Vou é estudar Filosofia, História, Ciências Sociais, Letras. Freelas vão me dar um dinheiro extra? Só se eu estiver precisando. Não vou mais aceitar trocar o engrandecimento da mente pelo da conta bancária.

É curioso, entretanto, o quão perdido eu estou. Mesmo tendo cravado tudo isso que você leu aí em cima, eu não sei o que quero. Só sei o que NÃO quero. Sim, já é um começo. Mas tenho 23 anos, não dá pra ficar muito tempo na linha de partida. Abri os olhos, agora enxergo, mas ainda não dei os primeiros passos. Estou imóvel e aturdido olhando para um horizonte não muito distante, mas que coloca à minha frente centenas de caminhos serpenteantes para que eu o alcance.

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8 comentários sobre “Os 20 e poucos anos

  1. … Bem cruéis!

    Fase complicada, parece que as escolhas são eternas. Mas não são. Jamais serão. Ninguém é tão sábio ao ponto de escolher um caminho para a vida inteira sem titubear, ninguém!

    No final, talvez a felicidade esteja no caminho trilhado, no caminho do autoconhecimento, e não nos fins, nos objetivos. Será que existe algo mais valioso e mais prazeroso do que o “conhece-te a ti mesmo” do filósofo? Do que descobrir aos poucos sua verdadeira natureza?

    O quê, nessa vida, poderia ter mais valor, do que aquilo que te dá o poder de atribuir valores as coisas?

    Somos o meio e o fim.

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    • Você tem toda a razão. Temos de encontrar a pitada de alegria diária para viver. Eu me apoio aqui e acolá, em pequenas coisas, nos amigos, nas conversas, na rápida cerveja e no cigarro que se esvai. Mas quero me apoiar em coisas maiores. É isso que busco nesse horizonte: o momento em que a base será forte e essas “muletas” que hoje uso serão só a ínfima parte de um todo.

      E lembre-se: o prazer de conhecer a si mesmo é também um sofrimento. Nada do que escrevi acima veio sem dor (você bem sabe).

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  2. Fico muito menos (depressiva) e satisfeita, que os sentimentos que possuo também são compartilhados por outras pessoas.
    Sinceramente há um misto de frustração e euforia nos meus dias atuais, com picos maiores e menores de cada um, intercalado por vezes, por outras sensações como alegria, melancolia, esperança, emputecimento com o mundo…Estranho pensar que mesmo nos nossos 2.3 eu me sinta como uma garota com as mesmas inseguranças que tinha aos 15.
    O meu interesse é o que eu quero ser, escavar e experimentar tudo aquilo que penso, que deve ser pra mm.

    Fundemos como o Raul, a sociedade alternativa!!!!

    “É curioso, entretanto, o quão perdido eu estou. Mesmo tendo cravado tudo isso que você leu aí em cima, eu não sei o que quero. Só sei o que NÃO quero. Sim, já é um começo. Mas tenho 23 anos, não dá pra ficar muito tempo na linha de partida. Abri os olhos, agora enxergo, mas ainda não dei os primeiros passos. Estou imóvel e aturdido olhando para um horizonte não muito distante, mas que coloca à minha frente centenas de caminhos serpenteantes para que eu o alcance.” ( minha descrição, uahsuahsuh)

    ps: Tadinho do Thyago chamado de vara pau quando era um menino…uahsuahsuha

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    • A minha impressão é que somos um bando de medrosos. Já sabemos que não queremos viver isso aqui, mas não damos o passo adiante. Por medo. Esperamos, ano após ano, que um caminho infalível se apresente à nossa frente. E isso é uma merda, porque ele nunca vai aparecer. Queremos ter tanta certeza antes de abrir a porta de casa e colocar o pé na calçada que acabamos ficando por lá a vida toda, cozinhando a pior pergunta que existe: “e se?”.

      E sim, eu sofri bastante haha. Minha força para passar por tudo aquilo era o velho discurso de cada um daqueles filhos da puta iria trabalhar pra mim um dia. Bom, não trabalham. E provavelmente ainda ganham melhor que eu. Obrigado, professores, por me fazer acreditar que todos os nerds seriam ricos, e todos os valentões, seus engraxates.

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  3. Será que é medo mesmo? Nada mais do sonhado faz sentido, é certo que há uma certa covardia, mas acho que é mais uma confusão, do tipo, por onde devo começar…
    Nossa, na escola nunca ouvi isso era meio selva, você xingava, era xingado, apanhava, batia…uahsusahuhausahsu Lidei, com todo o tipo de espécime. E me enterrei nos livros, truco essas coisinhas…suahusauhsa

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    • Acho que há muito de medo, sim! Um temor de perder aquela situação estável, cômoda. Mas claro, não há por que sair por aí jogando tudo pro alto se não há sequer uma ideia do caminho que tomar. É meu caso, por exemplo. Ainda não desisti de tudo porque ainda não tenho um rumo, uma decisão. Então eu abriria mão de tudo para ficar em casa, sem emprego, sem dinheiro? Nunca!

      Eu também enterrei a cara nos livros, mas eles enterravam os livros na minha cara de vez em quando hahaha.

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      • Cara, se bem me lembro vc já me disse, sim, que sabe o que gostaria de fazer, eu creio que vc sabe qual rumo tomar (e eu acho que te conheço bem, pra ter falado isso hahahah).

        E outra coisa, acho que não há motivo para ter tal temor… Não somos um qualquer, um ‘zé mané’, que não sabe se virar… Morrer de fome e virar mendigo eu tenho certeza que são coisas que não vão acontecer com vc, nem com a Mayara, nem comigo!… Coloco a minha mão no fogo (ai)!

        O máximo que pode acontecer nessas situações é vc quebrar a cara, ter que admitir o fracasso e etc… Mas, eu ainda acho que mais vale ‘tentar do que hesitar’, sempre!

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