O que eu via (Outro espelho)

Tudo que eu era se foi, pois, em único momento. Fui reconstruído em cima de pecado, minhas virtudes esquecidas. Olvidaram-nas em face do mal maior. Definido como verme, impuro. O mundo assim o é. Trilha caminho de luz vida toda e pisa em treva no último dia: crucificado será teu nome.

Via-me torto, pedaço de pano puído. Reflexo demente, insalubre, retorcido. Era morto, vaso quebrado. Não dizem, contudo, que os ruins não se partem? Ei de provar-me digno, pensara. Não tarda o dia em que me levantarei deste berço de pedra.

Não falta ódio em minha direção, é abundante a falsidade. Se já são tantos contra mim, por que também eu o seria? É preciso, companheiro de pesar, que nos ergamos! Erraste e aprendeste com tua queda? És outro, filho da dor e da experiência? Então, levanta-te! Se não há volta, garanto-te que há mais à frente!

Tal como a lenda, renasci. Acordei de sono pálido, enfermo. Enxerguei na pupila de meus amores o que o espelho escondia. Encontrei sustento neles quando minhas pernas me traíram. E daí parti só. De punhos cerrados, exausto de meu flagelo. Do açoite meu contra minha pele.

Trilha de espinhos, que ainda percorro, é verdade. Não estou pronto. Ainda é confuso o que vejo, o garoto, já mais homem, refletido. Há, contudo, estima. Há, finalmente, braços abertos para mim. Rosto marcado, o meu, mas belo. Assim o vejo, afinal.

Admito, entretanto, que seria leviano não ter feito de mim, momento algum, o mesmo julgamento que fizeram. Seria insensato não ter temido o mesmo monstro do qual fugiram. É preciso aceitar, a princípio, as pedras que cortam o ar para ferir-nos. É preciso, sim, dar a outra face. Não levo arrependimento do que ouvi, da mão aberta em meu rosto.

Enfim o Sol se aproxima. E brilhará sobre mim também. Nobres daqueles que não temem o castigo, que se curvam e reconhecem seu fracasso. Bem-aventurados daqueles que promovem reconstrução, renascer. Felizes daqueles que, humildes, aceitam o pesar e a humilhação, para depois, mais firmes, se colocarem de pé.

Abre teu sorriso, Thyago. Há ainda corações que se aquecem por vê-lo.

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