Do Jornalismo ao ceticismo

Mesmo admitindo que poderia ter levado mais conhecimento daqueles 4 anos, não foi pouco o que aprendi cursando Jornalismo. O que importa, porém, não é a quantidade. Nem a qualidade (!). É o uso que se dá à teoria. E onde se dá. Explico-me: de nada adianta absorver todo o saber possível no campus e não levá-lo para fora dele, para a vida, para a práxis (profissional, mas principalmente a pessoal). É preciso saber aplicar, ainda que inconscientemente, o que foi gentilmente enfiado em sua cabeça durante o curso.

De tudo que aprendi – e ainda aprendo – posso ser categórico em relação à mais importante “habilidade” que adquiri: a visão crítica. Não que seja necessário ser jornalista ou levar embaixo do braço qualquer outro diploma para ser um indivíduo crítico, não é isso. Mas, no meu caso, foi a academia que me trouxe esse “colírio”, que me “desembaçou as vistas”.

Ser cético, duvidar, questionar. Tudo isso faz parte de uma “atitude científica”, de uma busca por soluções empíricas, de um afastamento da subjetividade e da metafísica. Ser crítico é, antes de tudo, um requisito ao jornalista minimamente decente. Sabe aquela história de imparcialidade, de checar todas as verdades (sim, no plural), de ouvir todos os lados? Pois é. Parte-se do princípio, portanto, de que o ceticismo é inerente ao profissional da comunicação. Ou deveria ser. Contudo, como eu disse, de nada adianta ser correto em seu julgamento apenas no trabalho e na academia.

De pequenos e quase inofensivos exemplos a situações que podem definir nossos destinos, há muitos exemplos de como é bom (e necessário) duvidar das verdades prontas e bem embaladas que nos vendem. Ou melhor, dão. Se vendessem seríamos naturalmente mais receosos. Em absolutamente qualquer âmbito da sua vida é possível aplicar o mantra: “não tenho uma opinião formada, vou estudar mais sobre isso”. O que vejo (e que me assusta) é como todos têm posições concretas sobre tudo, todo o tempo. E como é fácil, aparentemente, tê-las.

Uso-me de exemplo. Até entrar na faculdade, eu era (ainda que não me desse conta) completamente influenciado pela revista Veja. É, imagine só, eu não podia nem ver alguém de camiseta vermelha na rua. Minhas opiniões políticas e ideológicas eram tiradas única e exclusivamente dali. Não procurava outras fontes. Nem pensava que deveria. Tomava como verdade absoluta. Eu era, grosso modo, “manipulado”. De certa forma por mim mesmo, mas manipulado. Hoje, graças ao meu pé atrás com QUALQUER informação, não engulo mais nenhum discurso a seco, de nenhuma natureza.

Vivemos um tempo de cabresto, de animais fortes, mas bem domados que somos. Não sabemos olhar para os lados, nossa visão não atinge 360 graus. É evidente que a situação tende a melhorar, como já está acontecendo. A internet tem um dedo aí. Um não, os dez. O acesso à informação que temos hoje não pode ser comparado com o que tínhamos há 20 anos atrás. De qualquer forma, não adianta oferecer livros aos cegos. Se não houver consentimento, vontade de aprender e de se soltar daquela “idolatria”, de nada nos serve todo o desenvolvimento tecnológico. Todo fanatismo é danoso. Quem só lê CartaCapital e brada impensada e violentamente pelo socialismo é tão útil pra sociedade quanto o classe média mesquinho que não desgruda de Veja.

Não estimulo a apatia. Não quero que fiquemos eternamente em cima do muro. Admiro quem toma posições concretas, decisões fortes, quem defende com argumentos – e não com violência – seus ideais. Mas pra isso é preciso MUITO estudo, é preciso ciência, é preciso mergulho. É preciso, sim, andar por entre gregos e troianos, é preciso vestir o boné do MST e o broche do PSDB. É preciso fazer compras em Miami Beach e desbravar os cafés de Havana. Não se pode fechar olhos e braços a nada! Absolutamente nada! A única coisa que você precisa ter em mente (e em mãos) é o seu senso crítico, é a dúvida, a pergunta afiada na ponta da língua, o questionamento insolente e irritante.

Orgulho-me de dizer que o Jornalismo se encarregou se me fazer assim, “medroso”, receoso. Repito, porém: você não precisa dele. Ninguém precisa. É apenas um atalho. E um atalho que muitos colegas meus de percurso não utilizaram, veja só! Quantos “jornalistas” não conheço que ainda servem de papagaios? Que repetem discursos de todos os tipos sem parar um momento sequer para ponderá-los? Nada, a não ser a força de vontade, garante a dádiva do agnosticismo. Seja agnóstico perante as verdades prontas. Nem “ateu” nem “religioso”. Agnóstico.

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2 comentários sobre “Do Jornalismo ao ceticismo

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