Entorpecimento constante

Na varanda de seu apartamento recém adquirido ele chora. Sentado no banco ainda com o plástico protetor, pensa, desesperadamente pensa. Sua mulher já adormeceu na sala. Seu filho, ainda acordado, assistindo desenhos na televisão, não imagina a dor que sente; e ele espera que nunca sinta, que ele trilhe caminhos diferentes.

A vida naquele casa pulsa a sua volta, a sua construção, o seu ideal de vida, tudo parecia perfeito, normal. Tudo parecia correto. Mas por algum motivo não está, alguma coisa lhe falta.

Ele toma sua quarta dose de whisky… Já se sente um pouco embriagado, não é mais o mesmo. Sua consciência é abalada facilmente nos últimos tempos. Se sente suscetível às forças externas. Quase sempre mais fortes que ele.

Todos vieram, amigos, família, nem tão amigos, nem tão família. Todos vieram discretamente aplaudir seu sucesso, o tão suado e sonhado sucesso. Mas mesmo assim, durante todo aquele dia de comemorações, se sentia mal, sentia viver uma vida que não lhe pertencia. Um ideal de sucesso imposto, comprado.

Mais uma vez culpa sua consciência, suscetível consciência. Quem dera tivesse trilhado os caminhos em que acreditava. Quem dera tivesse ouvido aquela voz que proferia blasfêmias sussurrantes em sua mente. Não ouviu, escolheu não ouvir.

E dói, dói demais. Mentiu para si mesmo. Sempre tentou ser honesto com tudo ao seu redor, mas mentiu. Foi um ator no palco da existência atuando, dia após dia.

Sabe que ama tudo que tem, tudo o que construiu durante esse entorpecimento febril. Sabe que ama, mas não queria amar tanto. Não estava em seus planos. Deixou-se levar, dia após dia.

Decepção, da pior espécie… Buscou felicidade nos sonhos dos outros. E agora, se sente sozinho. Passa por um julgamento constante. É seu próprio juiz, e na cadeira dos jurados também se encontra, sabe que nenhum deles irá absolve-lo por tantas mentiras. Foi um ser desprezível.

“Como posso ser tão cruel? Como posso me responsabilizar por aqueles que amo, se nem mesmo consigo ser eu mesmo? Como posso… Não posso…”

Adormece naquele banco e tem um estranho sonho com um pobre homem acometido por todos os tipos de doença, vestindo trapos, que lhe diz repetidamente “Se pudesse, eu mudaria tudo, cada ação, cada escolha…”.

Acorda no dia seguinte e enquanto se prepara para o trabalho lembra da tristeza da noite anterior, se lembra vagamente dos seus pensamentos e conclui “Preciso parar de beber, cada pensamento esquisito”.

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