Mais um rosto

Vestia uma jaqueta preta, blusinha verde sem estampas, calça jeans, All Star branco. Usava óculos. E dava pra notar que era por necessidade. Parecidos com os meus, quadradinhos, mas de armação mais discreta. Tinha cabelos ruivos, lisos, e estavam presos. Julgo que deveriam passar mais de um palmo de seus ombros se soltos.

Não era muito alta, devia ficar abaixo do meu queixo. Talvez um metro e sessenta. Era magra, chuto uns 50 quilos. Tinha pele bem branca, que contrastava com o esmalte roxo, já meio desgastado. Tinha também algumas sardas perto dos olhos e no nariz. Não ostentava anéis, mas vi um cordão prateado em seu pescoço. No lugar de brincos, pequenos alargadores pretos.

Os olhos, meio verdes, meio castanhos, estavam compenetrados em um exemplar de “O Amor nos Tempos do Cólera”. O sacolejar do metrô não a tirava do lugar, estava encostada na parede do vagão, pés entrelaçados à sua frente. A bolsa, grande, era preta, sem muitos detalhes. Pelo horário, estava indo trabalhar ou voltando da faculdade. Ou ambos. Aparentava ser pouco mais nova que eu.

Foi então que ela ergueu o olhar. Os olhos eram grandes, como de desenho animado. Será que era efeito dos óculos? Se ela tiver hipermetropia, é provável. O nariz era pequeno, meio pontiagudo, elegante. Os lábios finos, bem vermelhos, mas não de batom. Aliás, não usava nada no rosto. Estava sem maquiagem. O desenho do rosto era harmonioso, leve. Olhou à sua volta com certa dureza, contudo. Estava sisuda. Logo retornou à leitura.

Balançava os pés e mexia nas abas do livro a todo momento. Parecia muito impaciente, mas não desviou sua atenção das páginas uma segunda vez. Estava mesmo concentrada. Desceu uma estação antes de mim. Achei que sairia andando a passos rápidos, mas se arrastou para fora do trem. Mais uma terça-feira sonolenta. Eu a entendo.

Se foi. Não a verei outra vez. Nada sei sobre ela e nem conhecerei mais do que descrevi acima. E tive de me apressar em escrever este relato, senão esqueceria seus traços em alguns minutos, como esqueço os de centenas de pessoas todos os dias. Me pego a pensar quantos também já me “analisaram” dessa forma e me esqueceram dali a pouco. Seremos todos assim, transitórios?

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