Objeto na via

O metrô parou. Eram dez horas da noite de uma sexta-feira e o metrô parou. A explicação, sempre a mesma, é “por objeto caído na via”. É pra não nos assustar. Não acho que a galera que trampa no metrô se ache assim tão superior aos demais seres humanos para chamá-los de “objetos”.

Mas é, alguém deve ter tentado (e conseguido) se matar. Digo isso porque passaram-se 30 minutos sem um único movimento. Depois, andamos uma estação, para esperar nela por mais 15 minutos. Na próxima também, mais quinze. Se o “objeto” não tivesse sido atropelado pelo trem, não haveria tamanha confusão. Triste. De verdade.

Todo mundo estava com cara de cansado. Ninguém parecia estar indo pra balada. Eu mesmo estava voltando do trabalho e meu estômago me fazia passar vergonha. Exausto e faminto. E sem sinal no celular. Não conseguia nem fuçar a vida dos outros no Facebook. Ou seja, estava puto. Mas não com a pobre alma que resolveu se jogar nos trilhos. Aliás, achei impressionante: não ouvi uma pessoa sequer proferir um “tinha que se matar justo numa sexta à noite?”.

Havia, claro, umas reclamações, um ar de rabugentice generalizado. Mas eu, que esperava o caos, fiquei surpreso. Já era então 22h30 e estávamos ainda na mesma estação, vagão lotado. Quando achei que o motim estava pra explodir, notei uma interação à minha frente. Três pessoas – até então desconhecidas – começaram aquele papinho de elevador, ou melhor, de metrô. Até aí normal. O que me espantou é que logo o vagão todo estava trocando a maior ideia!

Foi se espalhando. As pessoas falavam, claro, do que estava acontecendo, mas também de outros assuntos. Me senti quase num happy hour. Eu, que sou sociável pra caralho, não interagi com ninguém, só observei. E fiquei feliz. Bateu um certo calor. Fiquei a pensar: basta que estejamos todos no mesmo barco para que nos comportemos como amigos de tripulação. Aquelas barreiras que erguemos a todo momento se vão. Abaixam-se os livros, guardam-se os celulares, tiram-se os fones de ouvido.

É uma merda que sejam necessárias situações como essa para olharmos pro lado, dar um sorriso, arriscar um diálogo. O cara tirou a própria vida e por isso as pessoas enxergaram umas às outras. Me senti meio mal ao lembrar disso. Mas que se podia fazer? Talvez, apenas talvez, alguém ali também tenha ido embora com o coração mais leve. Gosto de pensar que tudo tem um porquê. Tem que ter. E não, não sou esotérico. Só acho que o mundo é feito de muita matemática pra haver tantas pontas soltas, tantas coincidências.

Sexta à noite. Cheguei bem mais tarde em casa, meio branco de fome e já cambaleando de sono. Mas sentei e escrevi. Não foi a primeira vez que presenciei algo do tipo, é óbvio. Quantas vezes na fila do banco? Quantas vezes no aeroporto, na rodoviária? Mas foi a primeira vez que me atentei pro que estava rolando ali embaixo do meu nariz. Que me atentei pra importância de algo aparentemente tão simples.

É, acho que estou virando um humanista. Ainda não praticante, mas um humanista.

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5 comentários sobre “Objeto na via

  1. Acho astrologia legal e religião também, as pessoas é que (cagam) hsauhhusa. Do ponto de vista estritamente da curiosidade e de saber coisas das quais não se crê eu acho no fundo legal pacas, mas é tudo uma questão de ponto de vista…

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