Adeus, amarelinha

Estava estacionando o carro e a vi ali, deitada, perto da calçada. Logo pensei: “Nossa, mas é folgada mesmo, deitada desse jeito na rua!”. Mas em um segundo notei que algo estava errado. O farol do carro me mostrou manchas vermelhas por todo lado.

Foi automático. Só tive tempo de puxar o freio de mão, abrir a porta e sair correndo. O carro ficou ligado e com a porta aberta. Eu estava desesperado. A gatinha estava inerte no chão, com uma poça de sangue por trás da cabeça. Coloquei a mão no peito dela e perto da boca, para ver se ainda respirava. Tarde demais.

A princípio achei que tinha sido atacada por algum cachorro por estar tão perto da calçada. Não havia machucados em seu corpo, apenas a boca estava cheia de sangue, o que prova que aquela poça tinha saído toda de lá. E exatamente por não haver marca nenhuma é que concluí, em seguida, que deveria ter sido atingida por um carro e morrido de hemorragia. Deve ter caminhado até o final da rua e caído ali.

Era a gata da minha tia. Amarela e branca, uma graça. Dócil, brincava com qualquer um. Saí em disparada para avisá-la, mas não havia ninguém em casa. Noite de domingo, estavam todos na igreja. Não sabia o que fazer, só sabia que tinha de tirar ela dali, da rua.

Veio a parte mais difícil. Nunca havia pego em um animal sem vida, é muito ruim. Não sabia como carregá-la. Estava gelada, o que prova que o atropelamento não era tão recente. Acabei por suspendê-la pelas patas, com muito cuidado, e a levei para o quintal. Foi terrível.

Claro que eu já vi cenas piores, animais mortos na estrada e em estados horríveis. Mas ver um bichinho que você conhece, com o qual você interagia até algumas horas atrás é foda. Fiquei com aquele gostinho de impotência. Talvez, se eu tivesse chegado mais cedo, poderia tê-la encontrado viva. Não sei o que faria, pois em Peruíbe não há veterinários 24h. De qualquer forma, me senti mal, como se fosse em parte responsável.

Eu adoro animais, principalmente gatos. Foi bem difícil. Ainda que não tenha sido um ser humano (o que com certeza me traumatizaria infinitamente mais), é uma vida que se esvai, que se perde. Não deve ter sido culpa do motorista. A rua não tem iluminação adequada e os gatos não são muito espertos quando se trata de desviar de carros. Ao contrário dos cães, que param ao ver um veículo vindo em sua direção, os felinos tendem a correr mais rápido na mesma trajetória em que já estão. Ou seja: o cara vai desviar e acaba exatamente acertando o bicho.

É, infelizmente a amarelinha perdeu as sete vidas de uma vez só. Ou talvez já tivesse perdido seis, do jeito que era “levada”. Que lá no céu dos bichos ela tenha patê de atum infinito e consiga finalmente alcançar o laser vermelho.

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2 comentários sobre “Adeus, amarelinha

  1. Meu querido ,aquele dia foi muito triste mesmo ,ela era uma gatinha muito amorosa ,mas como nós gostamos muito desses bichinhos logo veio outra ,obrigada por vc recolher ,mesmo que sem vida ,tia Iara

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