Esprit fort

“Comparado àquele que tem a tradição ao seu lado e não precisa de razões para seus atos, o espírito livre é sempre débil, sobretudo na ação; pois ele conhece demasiados motivos e pontos de vista, e por isso tem a mão insegura, não exercitada. Que meios existem para torná-lo relativamente forte, de modo que ao menos se afirme e não pereça inutilmente? Como se forma o espírito forte (esprit fort)? Este é, num caso particular, o problema da produção do gênio. De onde vem a energia, a força inflexível, a perseverança com que alguém, opondo-se à tradição, procura um conhecimento inteiramente individual do mundo?”¹.

Antes de discutir o aforismo acima, é pertinente apresentar uma breve definição do que Friedrich Nietzsche toma por “espírito livre”: “Autossuficiente, o espírito livre […], ao invés de se deixar dominar pelos valores morais que lhe são impostos e se omitir perante a vida, busca sua libertação, sua própria atitude e conduta moral […]. Diferente do homem do rebanho, chamado de espírito cativo, que permanece preso à moral vigente e vive submisso e aprisionado pelas construções da metafísica e da religião […]²”.

Dito isso, devemos entender que o “esprit fort” é um aposto que pode ser alocado tanto ao espírito livre quanto ao cativo. Entende-se que o espírito forte traz consigo uma intensidade e objetividade na ação, seja ela racional e planejada ou irracional e impetuosa. A preocupação do filósofo é clara: como se pode transformar o espírito livre, naturalmente questionador e detentor de tantas visões e concepções de mundo, em um espírito forte de mão ativa? Como aproveitar o conhecimento e o discernimento do espírito livre e não deixá-lo passar sua existência inerte sob uma névoa de indecisão e de múltiplos caminhos?

É reconhecido que a grande qualidade e o predicativo mais significativo do espírito livre é exatamente a sua alma questionadora, que põe em dúvida todo e qualquer valor que venha a lhe ser imposto. O vaguear livre, para conhecer e por à prova toda a sorte de verdades e experiências que se descortinarem à sua frente, é a alma do espírito livre, sua razão de manter-se em movimento constante. A sua beleza é exatamente sua natureza mutável e, portanto, instável, incerta, hesitante, indecisa. É preciso, afinal, encontrar uma forma de não cegar-lhe os olhos perspicazes ao mesmo tempo em que sua ação possa ser minimamente direcionada para um ponto, um único foco em que haja alguma certeza.

Ora, se o espírito livre tende a refletir com tamanha exaustão acerca de qualquer fato, uma saída para tornar sua mão menos “débil” seria o agir instantâneo, baseado em reflexões anteriores que se aproximem da situação presente. Não há como ser um espírito forte com demasiado tempo de introspecção. É no breve mergulho do pensar que o espírito livre se perde, deixando passar o momento da ação. Não se trata de um fulgor irracional, mas de um ímpeto calcado em memórias de curto prazo e solidez proveniente de outra ocasião, na qual o agir foi suprimido exatamente em detrimento da involuntária divagação.

Nietzsche tem razão em seu temor. Todo espírito livre corre iminente risco de tornar-se apenas um libertário de si mesmo, isso quando o faz, pois mesmo a própria liberdade exige ação em muitos momentos. É importante também afastar uma visão elitista e segregadora, como que inexorável, de que os espíritos cativos são destinados à ação e ao trabalho, enquanto os espíritos livres são a razão e a ciência por trás dos braços cansados. Ainda que utópica, uma sociedade de espíritos livres não deve deixar de ser sonhada e, lentamente, buscada. A ascensão tem níveis e formas distintos que podem, certamente, envolver toda a raça humana.

¹ NIETZSCHE, Friedrich. Humano, Demasiado Humano. Companhia de Bolso: São Paulo, 2012.
² VICENTIN, Wagner. O conceito de “espírito livre” em Nietzsche. Disponível em: <<http://www2.pucpr.br/reol/semic/trabalho.php?dd0=6206&dd90=c791421519>>. Acesso em 22 de junho de 2013.

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