Gosto de lembrar

Lembra daquela música que te mandei uma vez? “Fast Car”? Você disse: “ques bonita!”. E é. Ela fala de um casal, em fuga, na estrada. O destino? Qualquer lugar. Gosto de lembrar das nossas viagens. Gosto da imagem, que não se apagou, do seu cabelo esvoaçando, dos seus óculos escuros enormes (que você usava a contragosto por ter que tirar os de grau).

Gosto de lembrar da sua mão na minha perna enquanto eu dirigia. E do jeito que eu a puxava de volta quando você a tirava de lá. Das músicas, que você trocava sem pudor, do rádio que era praticamente seu. Das minhas dancinhas ridículas que eu fazia só para ouvir a sua risada. Do seu sorriso quando eu balbuciava qualquer letra de John Mayer. Eu fazia de propósito, você deve saber disso. Sabia que você iria passar os dedos no meu cabelo e fazer alguma piadinha. (Não deixei de odiar esse cara, por sinal).

Gosto de lembrar de como você lutava pra se manter acordada quando a gente viajava de manhãzinha (ou de madrugada). Mas gosto mais ainda de lembrar de você dormindo. Eu sei, foram poucas as vezes que isso aconteceu. E como a gente falava! Por Deus! Não esqueço de quando fomos para Monte Verde e eu corri que nem louco para consertar o rádio do carro com “medo” de viajar sem ele. No fim, mal ouvimos meia dúzia de músicas.

Gosto de lembrar da sua calma quando a gente se perdia. E não gosto nada de lembrar do meu desespero. E não é que você estava certa, afinal? Não ficamos perdidos pra sempre em Biritiba. Não acabamos morando lá. (Se bem que não seria má ideia. Bem sabemos que em Biritiba é tudo mais legal. E as coisas funcionam).

Gosto de lembrar daquela prainha isolada em Búzios. Eu dizia que podiam trocar o nome dela pelo seu e ninguém iria perceber a diferença. Era linda, a Azedinha! Só eu, besta, queria entrar naquela água insuportavelmente gelada. Você, fina, só tomava sol. Gosto até de lembrar da gente coberto de areia e correndo pro hotel para tomar um banho antes que arrancássemos nossas peles de tanto coçar!

Gosto de lembrar da Rua das Pedras. Era bonita. Gosto da imagem da gente pagando de cult e tomando um café no Brigitte Bardot (e a gente nem gosta de café!). Gosto de lembrar da gente sentado, de noite, naquele bar de frente pro mar tomando uns drinks horríveis (só porque eram baratos) e dando risada da nossa péssima escolha.

Gosto de lembrar das “gaviotas”. Éramos tão turistinhas que dava até vergonha às vezes! Eu me recusava a levar a câmera pros lugares por pura preguiça, mas você insistia. Graças à sua insistência é que hoje tenho algum registro dessas viagens. Eu sempre fui relapso, você sabe. Sou do tipo que vai pra Nova York e volta com 20 fotos. No celular.

Gosto de lembrar da gente matando aranhas mil em Monte Verde. Quer dizer, gosto hoje, que é engraçado. E o frio que fazia? Eu passei o jantar todo tremendo, enquanto você estava tranquilona. Nunca entendi isso. Você sempre foi tão friorenta! Que te deu aquele dia? Também teve o meu suco de amora, que contrastava com seu chopp (fui devidamente trollado, claro).

Gosto de lembrar do drink péssimo que o Steve fez pra gente porque era meu aniversário. E dos argentinos simpáticos que não entendiam uma palavra do que a gente falava (e vice-versa). Dou risada quando penso no quão babaca eu era de querer sentar naquelas mesas suspensas. Dava um trabalho do cacete se equilibrar a noite inteira ali! E você aceitava! Não sei como, mas aceitava.

Gosto de lembrar de quando ficávamos de mimimi (não falo da minha mania de te apertar 24/7, mas de um romantismo de verdade!). Gosto de lembrar daquela foto que tiramos em Maresias, no fim de tarde. Foi algo como a nossa melhor foto. Ficamos realmente bonitos ali. E, obviamente, gosto de lembrar também de coisas que não posso escrever aqui…

Gosto de lembrar de tanta coisa que este texto, já tão longo, não acabaria mais. E olha que falo apenas de nossas viagens (as quais, por minha culpa, não foram tantas quanto poderiam ter sido). Mas, sobretudo, gosto de lembrar de quando não tinha que lembrar. Só tinha que viver. Sinto saudade do tempo em que minha felicidade não era passado, mas presente.

Gosto de lembrar de quando não doía lembrar. Quando não era um desafio lembrar. Sabe, tenho tentado mexer nessa gaveta cheia de escorpiões. Não posso deixar que tudo que passamos vire uma parte restrita de mim mesmo, da minha memória, do que eu sou. Não posso me trancar para fora de mim. Tenho que manter as portas abertas. Tão abertas quanto estão para você.

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