Hemos perdido aún este crepúsculo

Poema 10 do livro “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda. Decidi colocar o poema da forma original escrita por Neruda (em espanhol, claro) e a tradução para o português. A forma original é a original… Não tem jeito, qualquer tradução modifica a musicalidade e a simetria da linguagem do poeta. Tradução é interpretação, e interpretação é sempre criativa. Por isso, coloco o original e, em seguida, a tradução de Domingos Carvalho da Silva:

Hemos perdido aún este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

He visto desde mi ventana
la fiesta del poniente en los cerros lejanos.

A veces como una moneda
se encendía un pedazo de sol entre mis manos.

Yo te recordaba con el alma apertada
de esa tristeza que tú me conoces.

Entonces dónde estabas?
Entre qué gentes?
Dicendo que palabras?
Por qué se me vendrá todo el amor de golpe
cuando me siento triste, y te siento lejana?

Cayó el libro que siempre se toma en el crepúsculo,
y como un perro herido rodó a mis pies mi capa.

Siempre, siempre te alejas en las tardes
hacia donde el crepúsculo corre borrando estatuas

Nós perdemos também este crepúsculo
Ninguém nos viu à tarde com as mãos unidas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Vi, de minha janela,
a festa do poente nos montes distantes.

Às vezes, qual moeda,
acendia-se um pouco de sol em minhas mãos.

Eu te recordava com a alma apertada
por essa tristeza que conheces em mim.

Então, onde estarias?
Junto a que gente?
Dizendo que palavras?
Por que há de vir todo este amor de um golpe
quando me sinto triste e te sinto distante?

Caiu-me o livro que sempre se escolhe ao crespúsculo
e como um cão ferido rolou-me aos pés a capa.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
Até onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

"La Sebastiana" casa onde Neruda morou, na cidade de Valparaíso. Utilizava o quarto do topo da casa como seu escritório.

“La Sebastiana” casa onde Neruda morou, na cidade de Valparaíso. Utilizava o quarto do topo da casa como seu escritório.

Vista de Valparaíso da janela do quarto onde Neruda escrevia.

Vista de Valparaíso da janela do quarto onde Neruda escrevia suas obras.

Anúncios

Um comentário sobre “Hemos perdido aún este crepúsculo

  1. Neruda, seu lindo!
    Meu predileto é esse:

    Talvez.
    Talvez não ser,
    é ser sem que tu sejas,
    sem que vás cortando
    o meio dia com uma
    flor azul,
    sem que caminhes mais tarde
    pela névoa e pelos tijolos,
    sem essa luz que levas na mão
    que, talvez, outros não verão dourada,
    que talvez ninguém
    soube que crescia
    como a origem vermelha da rosa,
    sem que sejas, enfim,
    sem que viesses brusca, incitante
    conhecer a minha vida,
    rajada de roseira,
    trigo do vento,

    E desde então, sou porque tu és
    E desde então és
    sou e somos…
    E por amor
    Serei… Serás…Seremos…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s