Eu, comigo – Parte II

Depois da impetuosa viagem descrita em Eu, comigo, resolvi dar cabo de outra empreitada – menos ousada, mas tão inédita quanto. Já vinha adiando essa tarefa há tempos, com um medo que mais tarde foi devidamente justificado.

Num sábado tedioso, quando já tinha visto todas as séries e filmes possíveis, e quando já não aguentava mais olhar pro PlayStation 3, tomei coragem: “Vou ao cinema!”. “Mas que desafio há nisso?”, você me pergunta. Fora as poucas opções de filmes decentes? Ir sozinho.

Para alguns, deve ter soado dramático: “Mas é tão normal!”. Para a maioria, contudo, trata-se do ápice da solidão e da falta de amigos. Pois bem, ando mesmo solitário. Mas pegar um cinema sozinho é, pra mim, algo como um accomplishment, uma meta. Já comentei aqui o quão dependente sou de outras pessoas (por mais forever alone que eu seja – o que forma o paradoxo).

Tem gente que compra um apartamento e vai morar sozinho para dar um grande passo rumo à independência. Eu fui assistir “Universidade Monstros”. Como eu havia calculado, havia mais famílias do que casais, e isso (combinado com o afinado humor do filme) me deixou menos melancólico.

Durante as quase 2 horas fiquei até tranquilo, em que pese ter sentado ao lado de um casal bem apaixonado, do qual eu tentava desviar os olhos. Mas quando saí, veio aquele corredor. O da morte. Todos animados comentando o quanto eram fofos Mike e Sullivan e eu quase voltando para conversar com o moço que veio abrir as portas da sala. Não voltei, claro. Achei que ele não iria gostar de ouvir spoilers.

Em vez de fugir do shopping e voltar correndo pra casa abraçar minha família, fui audacioso e resolvi jantar. Foi a pizza mais demorada de toda a minha vida. Isso porque peguei apenas um pedaço e não mastigo as 32 vezes. Depois, pensei em fechar a noite com um Starbucks, mas achei que seria ousadia demais. Sabe como é: não se mexe em time que está ganhando. Ou melhor, perdendo, mas com a cara fingida do sucesso.

Bom, o saldo, como você já deve ter notado, não foi dos mais positivos. Fui lá, enfrentei meus demônios, mas não quero mais uma batalha com eles. Meu pai deu risada de mim (quando não?) e disse que fazia isso direto nos tempos dele. Mas isso porque ele era pobre e não tinha como pagar o ingresso da namorada, que devia ser mais pobre ainda.

Ao menos descobri que tem mais gente que pensa como eu. Ir ao cinema sozinho é tão loser que o próprio Cinemark escreve no canhotinho do ingresso: “Foi um prazer recebê-los”. Duvido que tenha sido, já que Deus entrou na faixa comigo. E olha que ele nem é estudante!

Anúncios

2 comentários sobre “Eu, comigo – Parte II

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s