De volta para o presente

Quando li “A Náusea“, de Jean-Paul Sartre, encontrei uma explicação bastante plausível para um mal que venho sentindo já há alguns anos e que se intensificou consideravelmente nos últimos meses. O livro é um romance existencialista. De forma resumida: Antoine Roquentin, o protagonista, se vê desiludido com a falta de sentido da vida e, no auge desse sentimento de vazio, ele passa a sentir a “náusea de existir”. Quando já se encontra atordoado por esse vácuo existencial, Roquentin se agarra à última esperança de escapar dessa condição: o reencontro com uma antiga paixão, Anny.

Eis que Anny foi o pilar de minhas conclusões acerca do que estou sentindo ultimamente. Explico: Anny criou um “conceito”, uma forma de entender e lidar com a vida que ela chamava de “momentos perfeitos”. Esses momentos perfeitos são frutos, grosso modo, de uma série de ocasiões específicas que precisam ser unidas e bem atadas: são as “situações privilegiadas”. A conta, então, é: várias situações privilegiadas dão origem a um momento perfeito. Bingo, Anny! Eu sei como se sente.

Uma situação privilegiada é algo que se destaca da roda comum da rotina. Não precisa ser necessariamente um momento único, mas tem que ser especial, destoante de alguma maneira. O martírio de Anny (e por tabela de Roquentin, que durante todos os anos ao lado dela nunca a compreendeu) era querer transformar toda a sua existência em uma sucessão de momentos perfeitos. Ela vivia em busca de situações privilegiadas para “costurá-las” e transformá-las em uma “colcha de perfeição”. Eram praticamente “obras de arte”, que eram arruinadas por qualquer empecilho ou obstáculo que se colocasse no caminho de sua lapidação.

Expliquei tudo isso para afinal falar de mim. O que me aflige me parece ser uma extensão do que sentia Anny. Eu, mais do que buscar momentos perfeitos (ainda que não com esse mesmo furor), me entristeço absurdamente quando eles passam. E o pior: sofro por antecipação. Passo a viver no passado antes mesmo que ele exista. Absurdo? Deixe-me exemplificar: a caminho da praia já estou pensando na volta, no que estarei sentindo enquanto dirijo para casa, para trabalhar na segunda-feira cedo. É insano! Eu tenho deixado de viver o presente com medo do que vou experimentar quando ele se tornar passado.

Ainda tenho os momentos perfeitos, contudo. Eles não deixam de existir por conta da minha dor antecipada. Depois de algum tempo eu me ponho calmo e consigo ignorar, quase por completo, esse medo de perdê-los. Mas entenda com o que tenho que lutar: é como perguntar a mim mesmo todo o tempo para que viver se um dia vou morrer. É exatamente isso. Para que abrir esta cerveja, para que acender este cigarro, para que assistir a este filme, para que, para que, para quê?! Qual o sentido dessas coisas todas? Elas vão se esvair em alguns minutos, vão se tornar lembranças, sombras do que foram situações privilegiadas e momentos perfeitos.

Preciso encontrar uma saída para essa minha náusea. Ou, se não houver “cura”, algum atenuante. Você não sabe o que é estar transando e pensando, ao mesmo tempo, que logo aquilo ali vai acabar. E sofrendo por isso. No meio do sexo! É loucura. Não sei dizer se isso tudo que descrevi é viver de futuro ou de passado. Só sei que não tenho bebido o suficiente do presente.

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11 comentários sobre “De volta para o presente

    • Será? Sou muito resistente a psicólogos, psiquiatras, terapeutas e afins. Quero resolver tudo sozinho, ainda mais quando se trata da minha mente perturbada. Inconscientemente, seria como me dar um atestado de fracasso, sabe? “Não posso nem lidar comigo mesmo, pra que porra eu sirvo, então?”.

      De qualquer forma, acho que já estou acumulando tantas demências, manias, surtos e síndromes que talvez eu me renda. Fique ligadinha nos próximos episódios dessa novela (porque sabemos que também há uma pitadinha de drama nisso tudo, né?).

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  1. hahahahah
    O drama é o que há!
    Psicólogos nos ensinam a encontrar o porquê de muitas coisas, ou como lidar com nossas inquietações, ou se quiser radicalizar no seu argumento “etiquetam” dores e amores humanos, para nos classificar nisso ou naquilo, não há fórmula para se viver. Mas isso que você descreveu parece ansiedade…O que todos nós temos, ainda mais quando a sociedade prega a todo tempo, que você deve-vir-a-ser…
    E ledo engano essa vibe de que não sei lidar comigo, isso é balela todo mundo despiroca de vez em quando, ninguém sabe lidar com todas as aflições que possui, a diferença está em que alguns, não se permitem questionar e há os outros que questionam a si, a tudo e a todos… Não exercemos controle nenhum sobre nossa vida…
    Já dizia o Raul Seixas cada um de nós é um universo…

    Mas ainda acho que terapia é mó legal aê.ahahah

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  2. Jesus disse no Sermão da Montanha “…..Quem de vocês, por mais que se preocupe pode acrescentar uma hora que seja à sua vida? Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal.”

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