Documentário: A Casa dos Mortos

“A Casa dos Mortos” retrata a realidade de um Hospital de Custódia (antigos manicômios judiciais) da cidade de Salvador. Esses locais são utilizados para o cumprimento de medidas de segurança de pessoas que cometem delitos mas são inimputáveis para a lei penal, não podendo recair sobre elas a responsabilidade total pelos crimes que cometem, sendo “condenadas” à um tratamento e não à uma pena (o que na prática pode ser muito pior, como o documentário mostra).

O estabelecimento mostrado não é dos piores, tem estrutura, os funcionários aparentam ser atenciosos, e os doentes não parecem reclamar do local. Porém, saindo da questão da estrutura e efetividade do Poder Público, outras questões podem ser levantadas: se até mesmo um Hospital de Custódia modelo não parece um local adequado e eficiente para tratar seres humanos doentes, já que muitos dos internos acabam ficando eternamente em tratamento (a medida de segurança não tem duração máxima prevista em lei, depende do Judiciário considerar o doente “apto” para livrá-lo), outros se suicidam, e outros acabam por sair mais “loucos” do que entraram.

Será mesmo que a real questão está nos estabelecimentos? Ou na qualidade e intensidade do tratamento? Ou no diagnóstico correto? Será que a real questão não está na ideia de “condenação para tratamento” propriamente dita? Será que esses homens não estão sendo simplesmente renegados da sociedade, já que essa sociedade não possui aparato (e nem motivação) suficiente para realmente tratá-los?

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6 comentários sobre “Documentário: A Casa dos Mortos

  1. Esse doc é foda! Controlar para adequar, normalizar, docilizar – Foucault mais presente que nunca, afinal medida de segurança serve para deixar esses “indesejáveis” no lugar deles, mais à margem que os demais.
    Campeão, tem um livro que saiu agora sobre o maior manicômio judicial brasileiro, chama-se: Holocausto Brasileiro pelas contas mais de 60.000 internos morreram no manicômio. Enfim, esse tema é por demais interessante, afinal não é só o sistema de justiça que deve se questionar, mas o quanto a sociedade civil é conivente com a punição, esquecimento, banimento dos “indesejáveis”, os presos, amentais, adolescentes em confronto com a lei…

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    • Exatamente, talvez o maior problema não é a justiça, ou o poder público, ou o tipo de estabelecimento… mas a ideia desse tipo de punição/tratamento… a ideia é extremamente cruel e desumana, mas convive tranquilamente em nossa sociedade. É aceita com a maior normalidade. Pensamento elitista, segregador, nazi-fascista…

      Eu dei uma olhada em uma matéria sobre esse livro, parecer ser foda! Vai pra lista infinita de livros a serem lidos.

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  2. Cê leu o Vigiar e Punir? Está muita coisa lá, mas não tudo, porque enfim a sociedade modificou-se ( ou agravou as exclusões inerentes ao sistema de justiça/econômico/social) em algum contextos que Fucô não pode explicar somente com as relações de poder-saber. Mas esse assunto é inesgotável e interessantíssimo!

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  3. Nossa Ricardo, tão forte quanto o outro, principalmente na parte das crianças que me cortou o coração. Um passo importante foi a luta antimanicomial que começou na década de 70 viabilizando a não internação dos “doentes mentais”, que hoje em dia é bem defendida pelos psicólogos e psiquiatras, tem outro livro do Fucô sobre os “loucos” que é a história da loucura, há também os Erving Goffman que é um clássico nos estudos dos manicômios.
    Mas acho que muita coisa dá pra refletir a partir desses docs, fico pensando que hoje em dia que pensamos ter progredido tanto, ainda há espaço para discussões sobre o criminoso nato, os irrecuperáveis; o quanto as pessoas gastam dinheiro com animais de estimação e acham o cúmulo investir no ser humano; o quanto a vida humana não vale nada.

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