A Perfeição do Besouro

“Eu sei quem eu sou!”, esbravejava o rapaz enquanto fitava o seu reflexo no espelho. “EU SEI QUEM VOCÊ É!”, desferiu um violento soco no espelho e foi ao chão, com sua mão sangrando, desatando a chorar.

Recobrou sua consciência aos poucos, enquanto pensava na insanidade que acabara de cometer: discutira com a sua própria imagem no espelho e, visando acabar com a discussão, lhe deu um murro. Algo estava muito errado.

Esses seus acessos de fúria eram recorrentes e incontroláveis, como rinocerontes em uma seca correndo loucamente atrás de água. Quando caía em si, tudo já havia passado, e só nesse momento notava a loucura que havia feito, se repreendendo imediatamente.

Enquanto divagava, sua cabeça pesava, chorava timidamente, sentia vontade de arrancar sua pele do rosto com suas próprias unhas, mas sabia que não seria capaz disso: havia aparado suas unhas ontem mesmo. Desistindo da ideia, observou um quadro que possuía em seu quarto há muitos anos, um quadro com algumas espécimes de besouros conservados. Não lembrava bem o que aquilo fazia ali, qual era a real intenção por trás daqueles insetos, mas uma coisa lhe intrigava profundamente: por que aqueles besouros estavam pregados no quadro, e o quadro estava pregado na parede? Por que os besouros não estavam pregados diretamente na parede? (o narrador não sabe se foi exatamente isso que o rapaz pensou, mas foi isso que ele fez).

E pregou os sete besouros conservados na parede, formando a imagem de um triângulo. Disse em voz baixa, com medo de que os besouros o ouvissem e ficassem enciumados por servirem de meio à uma forma geométrica: “Ah! Triângulos são tão convincentes. Triângulos feitos com besouros então! São o ápice de toda credibilidade que alguém, algum dia, poderia alcançar”.

Permita-me concordar com o nosso rapaz observado. O besouro é um inseto extremamente autêntico, o triângulo é incrivelmente fidedigno às suas convicções (fato óbvio, já quem tem sempre três lados), e o número sete, o número de sete besouros, é perfeito para a construção de um triângulo, sendo óbvio que tal engenhoca só poderia ser feita de uma única forma (sim! essa forma que você pensou!).

Incrivelmente feliz com a sua obra de arte (e por ter libertado os pobres besouros do temível quadro), nosso, com o devido respeito, colega, resolve apreciar a vista de sua janela e respirar um pouco de ar puro. A noite está um pouco fria, mas a lua está cheia e brilha forte, bem ao lado de Urano, que especialmente neste dia apresentava um brilho mais verdejante do que de costume, e claro, alguns quilômetros mais próximos, como já vem observando há algum tempo.

Enquanto alimentava um gárgula que havia pousado em sua janela para ler um livro, sentiu água tocar o seus pés descalços, percebeu, utilizando sua sensível cognoscência aflorada, que o seu quarto estava inundando! A água escorria pelas paredes, de baixo para cima, e também saía de dentro de seu armário de mármore. Em poucos minutos seu quarto estaria completamente cheio de água e ele, inevitavelmente, se afogaria, atrapalhando a leitura do gárgula, que pouco se importava com as aflições do jovem rapaz.

Nesse momento resolveu escovar seus dentes e, aproveitando, colocou uma trilha sonora em seu toca-fitas,  para o sublime momento de sua salvação, a canção, brilhante, dizia: “Ricardo, pare de se olhar no espelho e escreva tudo isso que está pensando no seu blog, talvez alguém queria ler algo bem diferente hoje, e isso ajude realmente para que essa pessoa pense que certas coisas não devem ser levadas a sério, ou ainda que tudo e nada deve ser levado a sério, e que a genuína alegria pode estar em coisas sem qualquer sentido, e que não há sentido algum para a alegria!”

Mas que bela canção, disse o narrador (e pensou o jovem rapaz escovador de dentes), enquanto um androide drenava a água para fora do quarto, com a indispensável ajuda de um prestativo ornitorrinco de plástico.

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