Meia-noite, minha noite

Não era pra estar lotado. Era uma quarta-feira, fria e triste, só mais uma merda de meio de semana. Mas todo mundo resolveu aparecer. O pub estava apinhado de “meio-jovens”, todos falando o mais alto que podiam. Foda-se, eu já estava ali.

Pedi logo um oito anos, sem gelo. Dura mais e não fica aguado. Sentei numa das poucas mesas vazias e coloquei meus olhos na madeira desgastada. Perdi um tempo com as rebarbas, os vincos, as frestas. Mas não dava pra se concentrar mais do que dois minutos em nada. As pessoas mais alegres de São Paulo estavam ali aquela noite.

Há muito tempo estava querendo sentar e beber sozinho, ver quantos copos e quantas ideias uma noite assim renderia. Não me lembro de já ter enchido a cara desacompanhado, então considerei como a minha tirada de cabaço oficial. Precisava tirar a prova, ver se eu me aturaria bêbado.

O primeiro copo custou um pouco a acabar. Não só pela minha garganta juvenil, mas porque eu estava concentrado demais em… tudo. Passei a observar cada um naquele pub, em vez me atentar para mim mesmo – a missão original da noite. Prometi que a partir do segundo copo isso mudaria.

Mudou. Com o refil eu relaxei, me voltei de novo para a velha mesa, para meu maço de cigarros, para o copo curvelínio e achatado, para minha mancha de nascença na mão direita. Isso! Minha mancha! Tudo começava a funcionar como planejado.

O segundo copo foi degustado ainda mais lentamente, para a alegria do meu bolso, inclusive. Toda a sorte de crises existenciais começaram a pipocar e eu fiquei a pensar se o whisky não seria, afinal, o melhor amigo dos filósofos. Platão devia mamar uma garrafa por dia.

Consegui me isolar por um tempo da turba ruidosa e festiva, mas logo ela cortou meu nirvana e eu achei melhor ir embora antes do terceiro copo. Eu já estava tonto o suficiente. Não tinha comido nada e o barman era generoso nas doses. Ainda tinha que dirigir até em casa e acordar cedo no dia seguinte. Afinal, até os grandes pensadores precisam levar comida pra mesa.

Durante o trajeto prometi que tomaria mais uma cerveja, que a noite ainda estava desabrochando. Decidi ir pra casa mesmo, tomar as últimas duas garrafas que tinha deixado na geladeira para algum dia especial. Bom, a quarta parecia especial o bastante.

No fim, acabei lutando para tomar a primeira e desisti da segunda. Chegar em casa é como colocar camisinha: corta todo o barato. A análise da noite ficou para outra hora, e eu dormi de cueca na noite fria. Bêbado são calorentos. E calorosos.

Foi interessante. Pretendo repetir, mas ligando no bar antes para saber se não está rolando algum um amigo secreto maluco. Já tenho vozes demais na cabeça, algumas até mais esganiçadas do que as daquelas mulheres de paetê e Budweiser na mão.

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