Breve paternidade

Sonhei que era pai. O menino era lindo (talvez fosse adotado então) e parecia ter uns 5 meses. A mãe não era nenhuma pessoa conhecida. Ou presente. Éramos só nós dois. O moleque também não tinha nome. Aliás, ele não tinha muita coisa além de mim, e eu além dele.

O cenário não era dos mais promissores. Um apartamento sujo, apertado, abafado. Eu mal conseguia andar, mais pela bagunça do que pelo tamanho do lugar. No banheiro havia aqueles espelhos antigos, que quando puxados revelam “mini prateleiras” atrás, com escova, pasta, fio dental, pente. O sonho começou aí. Terminei de escovar os dentes e fechei o espelho. Ele estava trincado e dividia meu rosto em várias miniaturas bizarras. Mesmo assim dava pra ver uma barba enorme e olheiras maiores ainda. Minha cara não estava nada boa.

O menino chorou e eu fui ao encontro dele. Dois passos para cruzar a cozinha e chegar à sala (fiz essa divisão para facilitar sua imaginação, pois era tudo uma coisa só). Ao contrário de mim, ele estava com uma aparência bem saudável. Gordinho, olhos tão negros e redondos que pareciam bolinhas de gude. “Fome? De novo?”, perguntei, esperando alguma resposta. Ele continuou resmungando.

A TV estava ligada em algum desenho antigo, e era daquelas de tubo, pequena. Ele estava só de fralda, fazia muito calor. Tomei-o em meus braços. E foi indescritível. Foi só um sonho, mas foi absolutamente incrível. Me senti tão bem com ele encostado no meu peito que toda aquela podridão em a gente vivia de repente não tinha mais importância. Nada tinha mais importância.

Ele parou de chorar logo. Passei a olhar fixo para a janela. Pensava: “Ele depende de mim. É parte de mim. Eu que vou moldá-lo, dar a direção para seus primeiros passos”. Bom, não exatamente nessas palavras bonitas, mas algo assim. Lembro de estar absorto nisso, na responsabilidade não só de mantê-lo vivo, mas de criá-lo, torná-lo mais relevante do que o pai fracassado dele.

Acordei meio perturbado. Fiquei o dia todo lembrando daquela carinha (a que todos os bebês de 5 meses têm, mas foda-se, era linda) e principalmente do peso, do fardo que eu senti ao me dar conta do meu papel ali. Não sei por que sonhei com isso. Estou solteiro, nem cheguei aos 24 e não penso em filhos tão cedo. Além do mais, não estou assim tão mal para acabar num apartamento nojento daquele. E, por fim, não acredito em premonição, destino, sinais, nada dessas merdas. De qualquer forma, mexeu. E mexeu legal.

Agora estou convicto de que preciso pegar uns tutoriais com meus pais nos próximos anos. Modéstia à parte, não sou lá de todo ruim. Devolvo troco errado, não uso assentos preferenciais, não paro na faixa de pedestres, não dirijo no acostamento. Posso não ser tão útil para a sociedade quanto gostaria, mas pelo menos não a deixo ainda pior (eu acho). Como é que meus pais fizeram isso? Por que eu não virei um filho da puta, um peso morto? Qual o segredo para dar aquele tapa na escultura e deixá-la pré-moldada, de forma que o mundo exterior não consiga deformá-la tanto?

A verdade é que eu continuo apavorado só com a ideia de ter um filho. Mas, depois dessa noite, o motivo é um pouco menos mesquinho. Temo mais pela juventude da criança do que pela minha. Como posso aceitar que exista um ser que será reflexo de mim se eu mesmo tenho mais dúvidas do que certezas quando me olho no espelho? A propósito: algum dia isso irá mudar?

No fim, acho que nunca estarei seguro. Vou chegar aos 30 tão nervoso quanto hoje. Com mais maturidade, uma mulher bacana e algum canto pra chamar de meu, mas nervoso. Apavorado igual. Mas assistindo a cartoons. Com ele no meu peito.

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