Meio-dia no cartório

E foi no 2º Cartório de Registros, perto da pasta 46, (som de carimbo), do arquivo IV, que esta história aconteceu…

Me punha na fila infindável a esperar por cópias autenticadas de uns documentos para a faculdade. Não que o cartório seja um lugar ruim, mas parece agredir e usurpar de pessoas cobrando taxas violentas por um carimbo, um rabisco e um adesivo. E o pior de tudo, um serviço ruim. Quer dizer… poderia ter sido ruim, se não fosse pela presença dela…

Que em meio às pastas amarelas, a garota loura de pouca idade, de cabelos longos e camiseta branca agarrada destoava brilhante;
De rubrica Deise e sorriso contagiante, vinha em minha ocasião perguntando por algo que eu não estava entendendo… seus lábios se moviam no compasso em que aquela tira de sua franja dançava em seu rosto, passando pelos olhos sabor caramelo e pelo queixo de forma engraçada.

Sua boca continuava se mexendo enquanto olhava para mim, não sei se ela estava falando turco ou se meus ouvidos estavam prontos apenas para saborear seu batom rosato.

Quando…! Um banho de realidade:

– Moço, o seu é para reconhecer firma ?
– Ah, não… Preciso de umas cópias autenticadas só.
– Pode vir aqui, por favor.

Eu, ainda confuso pelo golpe certeiro, tentava novamente apreciá-la (não que eu já não a tivesse visto, e como), mas ter tido a chance de ser o único ao qual ela veio oferecer aquele caixa especial na fila de mais de dez urubus deveria representar algo.
Entreguei os documentos, tentei uma piada ruim, mas nada ganhei além daquele pequeno brilho na lateral de sua boca, era a figura que Da Vinci pintaria se a conhecesse.

Mas eu não a conhecia. E talvez nem chegasse a conhecê-la. Talvez tivesse uma chance, mas me falta a “pedreirice”, sabe? Aqueles que abordam garotas na rua com bordões e frases de efeito do tipo:

– Aôô delicia, caba não, mundão!
– Você e mais um pacote de Trakinas e eu passo um mês!
– Gata, com essa bunda aí te deixo até cagar em casa!

E outras muitas frases que não cabem neste texto para não incomodarem a presença das damas que por aqui trafegam.

Me restava apenas sentar no melhor estilo Richard Geere, esperando pela senha número 26, mas o tempo não passava. E durante uma carimbada e outra, a espiava por cima do galpão.

Posters preenchiam a parede:

– Registre seu filho, é importante e gratuito!

Quando então o odômetro da espera virou para mim, paguei os R$ 16,30 que eram (in)justos por aqueles papéis e no limiar de ir embora fui até seu balcão e agradeci pelo serviço e a desejei um bom dia. Deise ainda meio confusa por aquela gentileza abriu novamente seu sorriso, como a criança prestes a assoprar o bolo, e se despediu.

É, caro leitor. Tanto quanto você, eu também esperava por um final mais feliz. Mas esta é a vida, onde a troca de gentilezas e sorrisos torna nosso cotidiano mais sutil e agradável.

E por onde nobres corações aguardam romper as barreiras da vergonha e estudam os movimentos uns dos outros à procura de uma brecha.

Anúncios

Um comentário sobre “Meio-dia no cartório

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s