Anestesia – I

Os cinco primeiros minutos foram os piores momentos que Júlio já havia vivido. Olhava o dono do bar e seu assistente caídos no chão, um ao lado do outro, e embaixo de seus corpos desfalecidos, o sangue saía de cada corpo e se juntavam, formando uma única poça. Uma única mancha.

Uma única mancha na vida de Júlio. Neste dia saiu de seu trabalho e só pensava em parar no bar próximo ao seu apartamento para tomar alguma coisa que aliviasse toda a tensão que vivia. Júlio passava por um momento péssimo em sua vida, estava caindo em um profundo desespero e não conseguia ver qualquer solução. Sua mulher, com a qual conviveu por 8 anos, dividindo aquele mesmo apartamento, havia pedido o divórcio. Saiu de casa com seu único filho e voltou para a casa da mãe. Além disso, Júlio não possuía contato com amigos ou com parentes, havia deixado tudo de lado para cuidar da casa e de sua família. Júlio achava que seguia os seus sonhos. Acreditava que nada poderia mudar a sua realidade.

Aquele era mais um dia que Júlio voltaria para sua casa e enfrentaria sua solidão. Enfrentaria o resultado de suas escolhas, a soma de suas chances desperdiçadas. Mas não voltou. Ao chegar no bar Júlio pediu uma cerveja e começou a conversar com alguns outros homens que estavam no balcão, tentou puxar assunto, dizendo que passava por um momento difícil, mas ninguém lhe deu ouvidos, estavam mais interessados nos resultados da rodada do campeonato brasileiro da quarta-feira, na jovem que passava na rua, ou no jogo de sinuca que acontecia nos fundos do bar. Júlio se sentia cada vez mais sozinho.

Júlio precisava de algo mais forte. Precisava se anestesiar, sentia vontade de chorar, ou de morrer. Pediu algumas doses de cachaça enquanto observava os personagens daquele bar, e entendia que era insignificante, tanto para eles, como para aqueles pelos quais dedicou a sua vida. Aos poucos todos foram indo embora, alguns bem bêbados, outros nem tanto, Júlio continuava tomando mais doses. Sentiu que a cada dose sua cabeça descansava, seu ódio começava a tomar outra direção.

Logo sentiu que seu corpo já não tinha o mesmo equilíbrio, mas seus pensamentos pareciam ter uma clareza absoluta, como se soubesse exatamente o que fazer. Sentiu uma sensação agradável, a primeira em semanas de depressão. Levantou do banco em que estava sentando desde de que chegara no bar para ir ao banheiro, andava trôpego mas sua mente parecia que funcionava com o máximo de atenção. As cores gritavam em sua ouvido, brilhavam em seus olhos, o odor desagradável do bar entrava por suas narinas e era processado por seu cérebro.

No banheiro algo aconteceu. Júlio se olhou no espelho: “Fracassado!”.

Continua nos próximos posts

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