Eu, eu mesmo e Thyago

Eu falo sozinho. Sempre que confesso isso a alguém, a pessoa replica: “Ah, eu também!”. “Mas calma, você não entendeu”, eu continuo. “Eu realmente converso comigo mesmo, discuto, debato!”. Só aí meu interlocutor corta o sorriso, arregala um tanto os olhos e faz aquela cara de “Ok, me explique isso direito”.

Não sei exatamente quando a mania (se é que posso chamar assim) começou, mas certamente foi na infância. Também não sei apontar motivos concretos para a sua aparição, mas talvez tenha algo a ver com o fato de eu ter sido uma criança muito sozinha. Então eu devo ter matutado: “Para que criar um amigo imaginário se eu tenho um de carne e osso?”. Pronto, começava a esquizofrenia.

Deixa eu explicar: não é que eu penso alto. Eu literamente bato o maior papo, com direito a perguntas e respostas, interlocuções exaltadas, julgamentos, conselhos e até xingamentos. Sim, eu me insulto. Sabe como é o calor da discussão, né? Mas depois eu me perdoo e fica tudo bem. Não guardo rancor.

Tento ser o mais discreto que consigo e as pessoas raramente notam que estão convivendo com um desequilibrado. Mas nem sempre consigo disfarçar, e os olhares são instantâneos e curiosos. É engraçado como sempre fitam direto as minhas orelhas, procurando aqueles microfones de celular. Não, gente, não uso essas coisas. Acho brega. E sim, eu falo sozinho e estou julgando quem fala com alguém parecendo que fala sozinho. Lide com isso.

Já li alguns estudos (nada confiáveis) que dizem que quem fala sozinho é mais inteligente, tem melhor raciocínio. Seria muito pertinente acreditar nisso, mas não acho que seja verdade. A única coisa que posso garantir é que eu consigo conviver bem em sociedade e não preciso (ainda) de uma camisa de força.

No geral, acho que esse hábito (no começo chamei de “mania”, mas “hábito” cai melhor) não é dos piores, apesar de configurar mais um obstáculo à minha convivência com os demais seres humanos. Também gosto de pensar que estou me conhecendo melhor, mesmo que eu costume perder todos os debates (enquanto eu, por outro lado, sempre ganho).

Só tem uma coisa que me impressiona: eu conseguir me impressionar. Sabe quando você tenta fazer cócegas em si mesmo? Não adianta, óbvio. Pois comigo não é raro que eu dê risada de uma piada que eu mesmo contei. Mas como, se eu já sabia o final dela desde o início? Não sei. Mesmo. Só sei que não rio por caridade. Eu percebo quando estou sendo falso. E não gosto nada disso.

No fim, se de nada servir essa demência toda, na pior das hipóteses estarei salvo se virar um náufrago. Afinal, não vou nem precisar de uma bola de vôlei pra trocar uma ideia…

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