A sapatilha vermelha

Era uma sapatilha vermelha, de camurça. Chutei que era tamanho 37. Estava jogada logo no meio fio. Não estava nada gasta, parecia ter sido comprada e logo abandonada. Fiquei a olhar pra ela enquanto fumava meu cigarro pós-almoço.

Que mulher, ou menina, a terá perdido? E como? Quem será essa Cinderela urbana, que anda com um pé só pela selva de concreto? Será alta ou baixa? Gorda ou magra?  Terá andar elegante ou engraçado?

Enquanto divagava sobre minha princesa metropolitana, um carro passou tão rente à guia que conseguiu acertar e amassar a sapatilha. Bom, agora ela não estava mais tão nova assim. Era o fim do meu conto de fadas moderno.

De qualquer forma, foi um atropelamento bastante providencial, pois eu precisava voltar ao trabalho. Dei o último trago e me levantei. Mas não dei nem três passos e parei: não podia deixar a sapatilha lá. Mais por sentimentalismo do que por cidadania, voltei para apanhá-la.

Pensei: “Ela merece um final digno. Afinal, alguma história morreu aqui, de amor ou de terror”. Apanhei a sapatilha e a joguei no lixo, sob olhares curiosos.

No fim, nunca vou saber se a sua dona corria para alguém ou de alguém, mas sei o seguinte: era mesmo 37.

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