O que é lembrança e as lembranças não-selecionáveis

Lembrança é o ato ou efeito de lembrar, seu antônimo: o esquecimento. É o que vem à memória? Ou o que se guarda na memória? É recordação? Ou, ainda, é o objeto que se dá ou se guarda para fazer lembrar alguém ou algo; um presente? É o souvenir do inconsciente? É ideia, inspiração, pensamento. O dicionário manda: ver lembrete, e termina em sua conceituação: é aquilo que comprova a ocorrência de um fato passado.

Aquilo que comprova a existência de um fato passado. A lembrança. Aquilo que comprova a existência da sucessão de dias em sua vida e ainda a ordem dos acontecimentos. Aquilo que o faz ter uma história. Aquilo que o faz envelhecer inevitavelmente. Aquilo a que nos remetemos quando quisermos achar a origem de algo em nossa existência. São os arquivos fundamentais da personalidade, a chave da individualidade latente de cada ser humano, o arsenal de emoções e de experiências, a raiz de todos os medos e inquietudes, os motivos de paz e guerra. São as experiências que guardamos ou não, que escolhemos carregar adiante ou não, ou que, por algum motivo, “grudam” nos porões de nosso consciente/subconsciente e nos acompanham fielmente durante anos, ou até durante toda a vida: suas lembranças.

E escolhemos nossas lembranças? Ou não? Temos o poder de esquecer aquilo que nos parece inútil? Temos o poder de guardar aquelas lembranças que consideramos agradáveis? De selecionar racionalmente tudo aquilo que irá permanecer guiando nossa existência? Creio que sim – por mera experiência própria de tentativa e erro – podemos nos livrar de lembranças que não queremos que nos acompanhem, um exercício de desapego intelectual, em que o treino e a prática lhe permite ter melhor domínio sobre tal método. É o querer esquecer.

Então afirmo que poderia apenas guardar lembranças ditas boas? Que seriam úteis no meu dia-a-dia, de modo a não possuir inconvenientes mentais e desconcentração involuntária, com lembranças que vêm à tona? Não, infelizmente não.

Considero que há dois tipos de lembranças: as selecionáveis e as não-selecionáveis. Claro, as selecionáveis são mais fáceis de conduzir, temos todo o poder sobre elas, e constituem grande parte de nossas lembranças, sendo, na maioria das vezes úteis (e não necessariamente boas, já que uma lembrança ruim, como cometer um erro, pode ter se mostrado essencialmente boa, por trazer uma lembranças de “como não errar”).

Nosso problema, e o motivo pelo qual comecei essa dissertação – também após experiência própria – são as lembranças não-selecionáveis. Essas sim fogem ao controle “racional”, e podem trazer problemas. Não são necessariamente boas nem ruins, podem parecer inúteis, ou mesmo podem trazer imenso prejuízo e incomodo à nossa vida, mas parecem ter grudado em alguma parte do consciente a qual não temos acesso direto.

Considero que esse tipo de lembrança constitui algum tipo de arquivo de emergência, por algum motivo, nosso sábio (e misterioso) inconsciente não permite que nos livremos dela, pois aparentam que terão aplicação em um futuro próximo. Por isso são inacessíveis por métodos “racionais”. Como uma reserva de sabedoria para o futuro, a qual ainda não entenderíamos.

Que futuro é esse? Um futuro possível. Um futuro imaginável, um futuro que nossa mente acredita plausível. Em que essas lembranças ruins serão essenciais para um crescimento de caráter ou para evitar um erro. Serão lembranças essenciais para a sobrevivência e que não estaríamos livres para lidar no presente. Uma sabedoria interior para o porvir.

Diante dessa segunda categoria de lembrança, altero, então, o significado de lembrança apresentado no início do texto: aquilo que comprova a existência de um fato passado. Utilizo outra conceituação para essas lembranças não-selecionáveis: aquilo que comprova (ou busca comprovar) a existência de um fato futuro.

Ou seja, conviva com elas, seria desgastante e nem um pouco sábio lutar contra o seu subconsciente – mesmo porque é impossível um vencedor. Por algum motivo ele está certo (ou moldará os fatos para estar).

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