Ciclo de existência

Dentro do carro. O farol fecha. A Av. Paulista inteira está à frente. Os pedestres começam a atravessar a rua desordenadamente e uma moça deixa uma pasta que carregava em seu braço cair no chão. Um rapaz para, se abaixa, pega e entrega a pasta. A faixa de pedestres abaixo deles começa a rastejar, como uma lesma, devagar, deixando rastros de pó branco no asfalto conforme se movimenta. Logo todas as faixas resolvem fazer o mesmo, se movimentam aos poucos, indo atrás da precursora da corajosa movimentação. Os pedestres continuam andando de um lado para o outro. Um motoqueiro ao meu lado. Coloca a perna no chão para se equilibrar na moto parada. Sua perna cria raízes e se gruda ao asfalto como uma daquelas raízes de árvores que saem da lama para respirar no manguezal. Logo ele inteiro se transforma em madeira. E sua moto também. O asfalto, por sua vez, borbulha, é líquido, é uma pasta cinza… É uma correnteza cinza de uma pasta cinza… As lesmas se afogam. O motoqueiro é engolido pelo asfalto. O farol abre. Navego naquela corredeira de asfalto. Os prédios ao meu redor, se tornam montanhas, e se inclinam conforme passo, formando um grande túnel rochoso a partir da junção do cume das montanhas, ou antigos prédios. O volante que seguro parece amolecer, derrete em minha mão. Imediatamente piso no freio, mas minha perna passa reto e toca o chão. Chão que é pasta de asfalto. A correnteza me suga e atravesso o carro, que nesse momento se assemelha a uma geleia escura. Entro na correnteza e afundo. Como esperado, chego até o metrô, direto na plataforma. As paredes parecem se mover, se afastam de mim conforme me aproximo, parecem ter medo. Conforme as paredes se afastam mais e mais, noto que esta é a plataforma de metrô mais ampla que já passei, talvez do tamanho de um campo de futebol, talvez maior que a própria Av. Paulista, de onde vim. Penso em subir a escada rolante e voltar para a Avenida, me sentia mais seguro lá. Mas, conforme me aproximo, a escada se transforma em uma imensa língua com degraus rolantes. Não conseguiria me equilibrar em cima dela. Mas as pessoas continuam a subir, que equilíbrio fantástico elas têm! Pessoas… Vejo alguns rostos vazios. Apenas um buraco cor-da-pele, livre para ser preenchido. Sem nariz, sem boca, sem olhos. Outros, ao contrário têm todas essas coisas demais, oito olhos, cinco narizes, nove orelhas. Rostos assimétricos, sentidos mais apurados. De onde tiramos essa ideia de simetria? Uma movimentação vinda do túnel do metrô. Meu carro-geleia-escura aparece, se debatendo. Dessas vez com patas ao invés de rodas! Como ninguém pensou nisso ainda? Subo em cima dele. Acredito que ele não se sentiria confortável com um ser humano dentro dele, agora que possui patas e se debate. Pergunto se alguém necessita de carona, mas as pessoas estão entretidas em se equilibrar naquela imensa língua, que coragem! As patas se assemelham a patas de grilo e, como esperado de um grilo, em um impulso volto a Av. Paulista. Belo salto! Durante o salto atravesso o teto do veículo e volto para o seu interior… Era melhor a sua antiga lataria, esse material gelationoso causa muita confusão e instabilidade. As pernas recém-criadas voltam para os seus buracos. Acelero o carro anda um pouco, graças as rodas que voltaram. Dentro do carro. O farol fecha. A Av. Paulista inteira está à frente. Os pedestres começam a atravessar a rua desordenadamente e uma moça deixa uma pasta que carregava em seu braço cair no chão. Um rapaz para, se abaixa, pega e entrega a pasta. A faixa de pedestres abaixo deles começa a rastejar…

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