Elas e eu

Acordei pensando nelas. Em cada uma das mulheres que passou pela minha vida. Pensei especialmente em você, claro, como não poderia deixar de ser. Bem sabe que minha mente doentia ainda se prende a uma coisa que não existe. Aliás: existiu algum dia?

Assim, de repente, o dia de hoje começou com cada sorriso, cada par de olhos, cada mão enlaçada na minha me vindo à cabeça. Tudo de uma vez, uma lembrança atropelando outra, perfumes se misturando, vozes disputando espaço.

O trânsito caótico à minha frente não era nada comparado ao que se passava ali dentro do carro. Era como se todas elas estivessem sentadas comigo, no banco do passageiro. Era como se várias mãos pousassem sobre minha perna, como se vários pés se apoiassem no painel.

Uma voz doce entoava Coldplay. Outra, impaciente, me criticava por ter pego o caminho mais congestionado. Uma terceira tentava segurar o riso enquanto contava uma piada. É, ela nunca soube contar piadas. A última se mantinha em silêncio, mas apenas porque estava brava comigo.

Eu estava ficando louco. Quis gritar com elas. Pedir paz, pedir para que saíssem dali, me deixassem sozinho. Eu posso suportar a presença de uma de cada vez, mas não de todas. Se nem o coração dá conta de abrigar mais de uma, por que a cabeça o faria?

Qual era o objetivo, afinal, de tudo aquilo? Fazer comparações? Descobrir qual era a melhor opção para um “flashback”? Ou então chegar à velha máxima do recalque – “Estou melhor sozinho”? Não sei, mas se o propósito era algum desses, não deu certo.

O que começou a povoar meu pensamento – assim que consegui expulsá-las – foi o seguinte: “Por que estou sempre pensando nelas? Uma, duas de cada vez, uma diferente por dia… não importa! Por quê? Não deveria estar pensando em mim? O foco não deveria ser eu mesmo?”.

Minha demência, então, se pôs a trabalhar. Em um instante, o lugar que antes era ocupado por belas mulheres (tenho bom gosto!) foi devidamente tomado por… mim. Lá estava eu, sentado. Não só no banco do passageiro, mas atrás também. Havia três versões: a criança, o adolescente e o adulto. Não era só saudosismo, portanto: tinha uma pitada de vidência, de futurologia.

Logo fiquei com medo de começarmos a brigar, a discutir, a tentar mostrar que cada um de nós era o melhor, o melhor momento de uma vida. Mas não houve uma palavra. Ficamos todos em silêncio, olhando para pontos quaisquer da cidade, meio absortos.

Ufa, paz. Relaxei, acendi um cigarro. Meu eu adolescente fez uma cara de quem queria um também, mas não tinha coragem de pedir. Já a criança e o adulto me olharam feio. Que bom. Pode ser que eu morra sozinho, mas não será de câncer no pulmão.

Mas a felicidade durou pouco. Quando vi o adulto saudável e bem apessoado, já fiquei doido para chamar algumas das meninas de volta e exibi-lo: “Olha aí! Não serei um bêbado fumante pra sempre!”. Me senti um idiota. Era bem capaz, aliás, que o adulto tivesse tomado vergonha na cara exatamente por causa de alguma mulher. Babaca! Não aprendeu nada nesses anos?

No fim, acabei me estressando e expulsando todos eles dali. A criança porque não gosto de crianças, o adolescente por ser imaturo e o adulto por ainda pensar como eu: que deve correr atrás da felicidade dos outros antes da sua própria.

Só fiquei curioso para conhecer o velho. Curioso e com esperança. Espero que ele tenha entendido, nem que no final da vida, que a sua própria companhia é a única da qual ele nunca poderá fugir. E, por isso mesmo, da qual ele deve cuidar com mais esmero.

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