Os melhores de nós são frágeis

“Com efeito, o resultado direto e legal da consciência é a inércia, isto é, o ato de ficar conscientemente sentado de braços cruzados. […] Repito, repito com insistência: todos os homens diretos e de ação são ativos justamente por serem parvos e limitados. Como explicá-lo? Do seguinte modo: em virtude de sua limitada inteligência, tomam as causas mais próximas e secundárias pelas causas primeiras e, deste modo, se convencem mais depressa e facilmente que os demais de haver encontrado o fundamento indiscutível para a sua ação e, então, se acalmam, e isto é de fato o mais importante. Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão minhas causas primeiras, em que me apoie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é, de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar”.

Fiódor Dostoiévski, em “Memórias do Subsolo”.

Quando me deparei com essa passagem, não pude deixar de relacioná-la instantaneamente com um texto que escrevi quando estava lendo “Humano, Demasiado Humano”, de Friedrich Nietzsche. Em “Esprit Fort“, destaquei o conceito do filósofo sobre os “espíritos livres” e os “espíritos fortes”. Brevíssimo trecho: “O espírito livre é sempre débil, sobretudo na ação; pois ele conhece demasiados motivos e pontos de vista, e por isso tem a mão insegura, não exercitada”. Eis a congruência entre o russo e o alemão.

Terá Dostoiévski influenciado Nietzsche? Talvez. Quando da publicação de “Memórias do Subsolo”, em 1864, o alemão tinha 20 anos, e só publicaria “Humano, Demasiado Humano” 14 anos depois, em 1878. Além disso, Nietzsche, ao ler o romance do colega russo, comentou: “A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites”.

De qualquer forma, trata-se apenas de uma curiosidade. Ainda que Nietzsche tenha sido diretamente movido pelos escritos de Dostoiévski, ele o terá sido por haver concordado previamente com o que leu. Portanto, não há demérito. Meu objetivo, na verdade, é apenas mostrar como duas das maiores mentes do século XIX tinham a seguinte ideia em comum: o tamanho de sua hesitação é diretamente proporcional ao da sua consciência.

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4 comentários sobre “Os melhores de nós são frágeis

  1. “Embora tenha afirmado, no início, que a consciência, a meu ver é a maior infelicidade para o homem, sei que ele a ama e não a trocará por nenhuma por nenhuma outra satisfação. A consciência, por exemplo, está acima do dois e dois. Depois, do dois e dois, certamente, nada restará, não só para fazer, mas também para reconhecer. Tudo o que será possível, então, será unicamente calar os cinco sentidos e imergir na contemplação. Bem, com a consciência obtém-se o mesmo resultado, isto é, também não haverá nada a fazer; mas pelo menos poderemos espancar a nós mesmo, de vez em quando, e isto, apesar de tudo, infunde ânimo. Ainda que seja retrógrado, é sempre melhor que nada “.

    Ob, cit., p 48.

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