Vontade de Potência

O propósito deste texto é reunir as informações retiradas das leituras de algumas obras de Friedrich Nietzsche acerca do conceito de Vontade de Potência e, mediante interpretação, compartilhá-las da maneira que enxergo. A teoria da vontade de potência permeia toda a obra de Nietzsche, principalmente nas passagens que buscam desvendar a moral dos homens, sendo conceito fundamental para entender o que o filósofo acreditava da moral moldada no decorrer dos tempos e das relações entre os homens em meio a ela.

Inicialmente, consideremos a distinção que Nietzsche faz de dois tipos de homens, diante de sua postura em relação à vida, serão denominados aqui de dominadores e homens do rebanho (no decorrer de sua obra Nietzsche empresta vários nomes para esses dois tipos de homem, senhores, homens ativos, homens reativos, homens do ressentimento entre outros).

O dominador é aquele que cria valores e os impõe aos outros homens, é essencialmente ativo, um conquistador. Não permite ser dominado e suas criações são feitas para dominar outros homens; é um senhor em sua essência. Já os homens do rebanho são aqueles que seguem determinados comandos, não são criadores, e sim escravos da moral imposta pelos primeiros, prezam pelo sofrimento e pela abnegação. O homem do rebanho é descrito por Nietzsche muitas vezes, dentre outros, como o homem que segue os preceitos cristãos, onde deixa a sua vida (e moral) ser guiada por preceitos dados, aguardando os frutos da “vida em cristo” para o futuro, em uma além-vida que lhe é prometida como recompensa de seus esforços de abnegação e “bondade”.

O traço principal do caráter dos dominadores é a vontade de potência (também encontrada em algumas traduções como “vontade de poder”; o original em alemão, como escrito por Nietzsche: “Der Wille zur Macht”). Um impulso dentro de si, que se traduz em um pensamento e, por fim, em uma vontade. Esta vontade, um “[…] olhar direto que fixa exclusivamente uma coisa, a incondicional valoração que diz “isso e apenas isso é necessário agora”, a certeza interior de que haverá obediência, e o que mais for próprio da condição de quem ordena. Um homem que quer – comanda algo dentro de si que obedece, ou que ele acredita que obedece” (Além do Bem e do Mal, capítulo I, 19) .Vontade esta que atua sobre a própria vontade, e não sobre a “matéria”. Vontade esta que busca a superação, a expansão. Vontade de dominação dos outros homens, de sempre evoluir, de ser maior.

Já a potência é o que fará essa vontade que atua sobre vontade se efetivar. É o que lhe permite dizer sim a si mesmo, e exteriorizar essa vontade. A potência dá vazão à força do indivíduo manifestada pela vontade. O homem dotado de vontade de potência é aquele que pode dilacerar, destruir, modificar todos os conceitos. Sua eterna vontade de potência o impele, como caráter crucial à sua existência que permanece buscando sempre mais, sempre o diferente, sempre a mutação. Uma curiosidade incessante e destruidora.

A vontade de potência em Nietzsche é então necessária para tudo o que o filósofo propõe para o futuro. Como no subtítulo de “Além do bem e do mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro”, e “Vontade de Potência: Ensaio de uma transmutação de todos os valores”. Em todos os seus objetivos como filósofo, e no que acreditava ser uma filosofia do porvir, além dos conceitos do Super-Homem e da uma nova moral, a vontade de potência ocupa o lugar-raiz. Sem uma exarcebação dessa característica nos homens, todos os seus preceitos seriam inúteis. A vontade de potência é condição para a filosofia proposta por Nietzsche, e é condição para ler e entender toda a filosofia de Nietzsche.

O conceito da vontade de potência ultrapassa as barreiras das relações morais entre os homens e, mais à frente em suas obras mais maduras, Nietzsche o enxerga também no mundo inorgânico, e entre o constante antagonismo de todas as forças do mundo, as mesmas condições: “O mundo visto de dentro, o mundo definido e designado conforme o seu “caráter inteligível” – seria justamente ‘vontade de potência’, e nada mais” (Além do Bem e do Mal, capítulo I, 36). Sendo não uma criação do homem (como todas as outras explicações das forças “superiores”), mas sim uma característica eterna da realidade da vida e do mundo.

“E sabeis… o que é pra mim o mundo?… Este mundo: uma monstruosidade de força, sem princípio, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força… uma economia sem despesas e perdas, mas também sem acréscimos, ou rendimento,… mas antes como força ao mesmo tempo um e múltiplo,… eternamente mudando, eternamente recorrentes… partindo do mais simples ao mais múltiplo, do quieto, mais rígido, mais frio, ao mais ardente, mais selvagem, mais contraditório consigo mesmo, e depois outra vez… esse meu mundo dionisíaco do eternamente-criar-a-si-próprio, do eternamente-destruir-a-si-próprio, sem alvo, sem vontade… Esse mundo é a vontade de potência — e nada além disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência — e nada além disso!” – Nietzsche, Fragmento Póstumo.

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