Obediência

Escuto diariamente a reprodução de opiniões. “Acho que é isso, pois ouvi isso, é o que ouço em todos os lugares. É a verdade! Todos falam, todos falam a mesma coisa. A verdade sempre é reproduzida!”. Homens que se libertaram do fardo de guiar sua consciência, e apenas acatam – quase sempre sem sequer notarem – ordens e comandos, quase sempre legitimados, às vezes nem tanto. Lei, autoridades, religião, Deus, crença, família, educação, mercado de trabalho, aparência, dinheiro, “felicidade”, “bondade”, “compaixão”. Agrilhoados por todos os lados – Homens obedientes!

Mas não seria surpreendente tal crescente característica já que a obediência humana é treinada desde os períodos mais remotos da raça humana. O homem nasceu obedecendo e procurando obedecer para sobreviver em seus clãs, ou mesmo para não ser responsabilizado em atos hostis, como em guerras. Sempre obedecendo em seus rebanhos de paz.

Não é surpreendente já que desde sempre muitos obedeceram comparado ao número dos que mandaram. E aqueles que mandam também não se colocam na posição de mandantes, “sigo o cumprimento da lei”, “apenas cumpro ordens de meus superiores”, “apenas faço o que me mandaram”. Mandar é feio. Obedecer é bonito. Essa é a moralidade ocidental. É necessário esconder a sua aptidão de comando, pois na verdade quem realmente manda nunca pode estar presente, ele não é bem quisto, se esconde em seu covil de poder.

Mas, voltando à primeira frase deste texto: “Escuto diariamente a reprodução de opiniões”, o perigo que vejo nessa frase consegue ultrapassar até mesmo a fé e esperança que possuo no futuro. Um homem com poder de persuasão, o dom da palavra, com poder para chegar às mídias. Com vontade de comando. Como esses já vi muitos. Mas em meio a uma pós-modernidade talvez a sua disposição seja maior. Esse homem espera o seu momento, e é certo que cedo ou tarde surgirá, como um “libertador”, como um “salvador”, como um verdadeiro “comandante” carismático.

Meu medo da aparição desse personagem não é em vão, vejo uma inteira geração de homens e mulheres dizendo aos quatro ventos: “Nos digam o que pensar, nos digam o que assistir, nos digam o que fazer, o que comprar, o que vestir. Me diga, pelo amor de Deus, quem sou eu!”. E quando esse homem chegar, vestido de suas intenções, municiado de poder, o rebanho lhe dirá: “Que alívio, como é agradável tirar essa pressão de nossos ombros, mande incondicionalmente em minha vida! O que eu devo pensar? Me diga como agir! Sua ordem é lei!”. Eu tenho medo do que pode acontecer.

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9 comentários sobre “Obediência

  1. Mas que tom pessimista.
    Verdades se estabelecem para serem reproduzidas, não apenas no plano moral, mas no plano social. Como diriam os existencialistas – a grosso modo, quando o homem percebeu que era “livre” preferiu permanecer oprimido, porque a liberdade era um fardo pesado demais para o ser humano.
    Carisma, mestres, salvadores, todos esperam por isso.

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  2. Indo na linha crítica do texto, a “verdade” não pode ser determinada, única, universal… Ela seria justamente o oposto, a luta constante entre as diversas “verdades”, a força transformadora do mundo, a vontade de potência… Considero que nenhuma reprodução pode ser considerada verdade, tanto pelo reprodutor quanto pelo seu criador original, mesmo uma “verdade” adotada e dita irrefutável não é uma verdade se não se permite transformar, ir além, transbordar seus limites… A verdade seria um ponto de partida para sempre a ultrapassarmos.

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