A beleza do horror

Comprei Edgar Allan Poe por acidente. Quando cheguei à livraria e comecei a rodar aquela estante de pocket books, procurando por algum clássico que eu já deveria ter lido, avistei “O Príncipe e o Mendigo”, de Mark Twain. Peguei na mesma hora e fui para o caixa. Por azar (ou sorte), o livro estava com falhas de impressão (metade do livro de cabeça para baixo) e eles não tinham outro no estoque. Foi aí que entrou Poe. Como segunda opção, acredite.

Já tinha ouvido sobre esse americano, mestre do terror e precursor da ficção policial. São gêneros que muito me atraem, por sinal. Juntei, portanto, a curiosidade (nunca tinha lido nada do autor) e a minha predileção pelos temas com os quais ele trabalhava e comecei a leitura de “Antologia de Contos Extraordinários”. O livro reúne 13 contos (por que será?) dos mais cabeludos e assustadores já escritos por Poe.

A princípio, é um tanto difícil engatar na leitura. A escrita, diretamente do século XIX, não chega a ser rebuscada, mas é bem… intensa. Explico: trata-se de um dos autores mais minuciosos que já li. Se Tolkien sabe descrever como ninguém uma bela paisagem de Midgard, Poe esquadrinha a mente, a personalidade e as ações humanas de forma tão impressionante quanto. Não diria que a narrativa é “arrastada” ou cansativa, mas certamente você vai achar, de começo, que há muita “enrolação”, que ela é excessivamente prolixa. Besteira, como verá adiante.

Acredito que essa acentudada descrição é a porta de entrada para o delírio e o mistério que abocanham o leitor e o colocam no meio da história, com tanto medo quanto os próprios personagens. Afinal, como é que em contos de apenas 10 páginas eu poderia me sentir arrepiado e consternado com o que estava lendo? Aliás, é bom ressaltar: é dos trabalhos mais difíceis inserir pavor por meio de palavras. Um filme ou uma peça de teatro são muito mais propícios para isso. Invadir a mente de quem te lê e enchê-la de temor apenas com um pedaço de papel? Gênio.

Agora, aos contos: vou falar (e brevemente) de apenas três deles. Quem sabe você não se interessa e os lê na internet antes de comprar um livro? Foram escolhas árduas, mas que, em minha opinião, representam três importantes eixos da obra de Poe. O primeiro deles é “Gato preto”. A máxima aqui é a da sanguinolência pura. Da barbárie, da bestialidade, do frio assassinato. Já assistiu a “Jogos Mortais”, certo? Fichinha.

O segundo conto é “William Wilson”. Neste caso, preza-se pelo que citei anteriormente: o retrato da insanidade humana, da insalubridade do pensamento, da demência em seu mais alto e preocupante estágio. Mostra-se como um homem pode chegar ao fundo do seu próprio poço mental, e sozinho construir sua sepultura, enterrando-se vivo.

Em terceiro, eu recomendaria “Os crimes da Rua Morgue”. Aqui, Poe revela por que foi eleito o “pai da ficção policial”. Em uma narrativa tomada de enigmas aparentemente insolúveis, ele coloca o leitor à frente das “investigações”, no meio de todo aquele pandemônio de provas, evidências, suspeitos e testemunhas em que nada, absolutamente nada parece se encaixar. E, como num passe de mágica (e é mágico mesmo), o autor desata todos os nós e te deixa com uma irremediável sensação de: “Caramba, então era isso? Estava na minha frente o tempo todo!”.

No mais, acredito que se trata, sobretudo, de uma leitura de entretenimento. Não espere encontrar respostas para dilemas humanos, tampouco pílulas morais. Aliás, se tem uma coisa com a qual o autor não trabalha é com moral. É tudo tão imundo e virulento que é preciso passar um álcool gel nas mãos após largar o livro. Só não dá para fazer o mesmo com a sua cabeça. E é aí que Poe ganha. Que todos ganhamos.

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