Ação Penal 470

Um tom alto demais na reclamação – Se uma situação crítica (como os vícios de uma administração, ou corrupção e favoritismo em entidades políticas e culturais) é descrita de forma bastante exagerada, a descrição certamente perde efeito junto aos perspicazes, mas age com tanto mais força sobre os não-perspicazes (que teriam permanecido indiferentes, no caso de uma exposição cuidadosa e moderada). Mas, existindo estes em número consideravalmente maior, e abrigando em si forças de vontade mais intensas e mais impetuoso desejo de ação, o exagero favorece investigações, castigos, promessas e reorganizações. – Nesse sentido, é útil exagerar na descrição das crises”.

Friedrich Nietzsche, em “Humano, Demasiado Humano”, 448.

Os fins justificam os meios? Até que ponto o apedrejamento público e a condenação calcada na vingança (e completamente alheia à reparação real dos danos) legitima a aurora de uma nova consciência política? E mais: que consciência será essa, se fundamentada nos preceitos errados, ensinando, como se a vida já não o fizesse, a Lei de Talião como caminho a ser seguido?

Afinal, o entusiasmo dos “não-perspicazes” tem sua chama acesa por quanto tempo? Não parece improvável que sejam necessárias constantes guilhotinas para manter vivo o debate. E, nesse momento, a questão torna-se relevante mais uma vez: qual será a qualidade desse debate? Sobre quais parâmetros, quais princípios terá sua gênese? E o mais determinante: a que conclusões chegará tendo como alicerces esses elementos primeiros?

São perguntas que não encontram respostas concretas tanto pela sua natureza transitória (serão particularmente distintas em cada momento histórico) quanto pela sua especificidade (cada crime guarda sua reflexão). De qualquer maneira, é imprescindível temer pelas “forças de vontade mais intensas” e pelo “mais impetuoso desejo de ação”. É quando tomam forma e mãos pesadas a ignorância e o anseio por uma falsa justiça, é quando o debate pode ser (e sem cautela certamente o será) reprimido pela bestialidade.

Ademais, ainda que não seja possível discordar de Nietzsche sobre a utilidade do exagero, que finda na inflamação das massas – para que essas se iniciem na política –, é viável questionar como será construído e direcionado esse “tom alto demais”. Se houver mais senso de justiça do que violência, há uma possibilidade de que esse clamor seja proveitoso. Não como fecho, mas como prólogo de uma nova sociedade.

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