Todo querer

De repente fui tomado de vontade. Tanta vontade e determinação que poderia começar, neste momento, aquela pós que estou postergando, poderia me inscrever na academia agora, às duas da manhã. Ou, melhor ainda, poderia pegar meu carro e cair na estrada, como há tanto tempo venho planejando e jamais agarro meus colhões e me ponho a fazê-lo.

É uma sensação das mais estranhas e surpreendentes que podem lhe acometer. Sabe, são duas da matina e eu tenho de levantar logo, para estar na porra do plantão. Mas foda-se. O dia que começa hoje também acaba hoje. O amanhã não existe. O presente é a única coisa tangível, palpável. Pois enchi meu copo. Whisky. Doze anos. Sem gelo. Nos fones, o melhor do blues da década de 60.

Há, porém, algo que odeio nessas epifanias. Nesses ímpetos, nessas explosões de tesão, de sangue quente correndo nas veias (quase posso vê-lo avermelhando minha pele branca de escritório). Há uma coisa que odeio: sua efemeridade. E há algo que odeio mais ainda: minha covardia. É por causa dela que esses momentos são efêmeros, voláteis. É pela minha fraqueza, é pelo meu medo, pela merda da minha sempre constante ideia de estabilidade que eu não faço nada.

O Jethro Tull continua comendo solto. Meus dedos voam, escrevo sem correções, sem voltar. Este texto vai para o ar do jeito que sair e na hora que sair. Exatamente do jeito que eu deveria levar a minha vida. Exatamente do jeito que eu deveria me levantar e cuspir para as pessoas e para o mundo o que há aqui dentro. E até mesmo cuspir para cima, por que não? O que não dá mais é para ficar com essa boca seca.

Me veio na cabeça agora Kerouac. Consideradas as devidas proporções, ele fez algo parecido. Mas não por uma noite. Não por um momento, não por acaso. Era ELE ali. Suando, se contorcendo, bebendo e sangrando em cima de cada página, dia após dia. E por que diabos não posso ser igual? O que me impede? Quem me segura?

Tenho decidido tanta coisa nesses últimos dias. Tenho colocado tantos desejos no papel. A pós, o mochilão, aquela morena do Jurídico com quem sempre pego o elevador. Há tanto para se correr atrás que mesmo que passasse o resto da minha existência fazendo isso, não alcançaria tudo que quero. E por que, por que eu perdi os últimos 24 anos na inércia, porra? Mas que merda! Então vou me matricular. Vou comprar as passagens. Vou olhar nos olhos dela e responder: “É… é um bom dia, sim!”.

O copo já está no fim. Estou suando. Quase me sinto abençoado pelo deus dos beatniks. Me deixem sonhar! Me deixem achar que sou algo, que tenho algo, que VIVO algo aqui! Se eu não achar, ninguém mais o fará.

Tudo isso aqui parece pequeno, eu sei. Também acho bem incipiente escrever no meu notebook, no conforto do meu quarto, com um whisky de boa qualidade. Mas a gente começa DE BAIXO, certo? Não vai demorar para eu ter apenas uma caneta e um caderno, no meio do Atacama, com um vinho barato ou uma daquelas cervejas horríveis que eles vendem lá. Água sulfurosa, sabe? Exatamente o tipo do veneno que eu estou precisando. Meu corpo está limpo demais, saudável demais.

Um brinde, comigo e a mim mesmo! E a quem quiser estar comigo. Que venham mais momentos destes, tantos, mas tantos que uma hora será rara, na verdade, a apatia na qual tenho vivido até agora. Vou inverter essa porra toda. Vocês vão ver. Ou melhor, EU vou ver. É o que importa.

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