Heimatlos

Heimat – do alemão: pátria; país (natal), terra (natal).
“Heimatlos – do alemão: sem pátria; apátrida.

Talvez não haja melhor sentimento, melhor colocação, melhor palavra que “heimatlos” para o que senti neste dia.

Hoje a casa onde nasci e fui criado foi abaixo, foi demolida, hoje eu perdi meu Lar… ok, que não fosse onde moro hoje, porém foi onde nasci, onde vi meu irmão nascer, vi minha família se amar e ali… ali naqueles 8 x 50m eu vivi, vivi e sorri os melhores 16 anos de minha vida.

Posso dizer que passei pela experiência mais próxima do que aqueles que perdem seus lares por um desastre natural, ou destruídos por uma guerra ou por um conflito sentem. Ver seu lar reduzido a pó, tijolo, concreto e tristeza misturados. No sentido mais apático que se possa imaginar.

Das mudanças que ocorrem em nossa vida, talvez seja a mais triste a da transfiguração da imagem, a mudança do ser. A incapacidade de reconhecer e atrelar sensações àquilo que já se foi. Pois hoje ele já não é mais, e não saberá reconhecer mesmo que você conte e descreva como foi. Pois essas memórias morreram, não pertencem àquele novo ser, e ele, coitado, sofre calado. Pois não entende a dor nostálgica daquele que já a viu.

Sentei na lareira em busca de algo que me identificasse, cheguei tarde.  A escavadeira já estava em operação desde o dia anterior, do semblante da casa já não restava nada, mal se via os pisos do chão, que com dor me diziam que ali funcionara um banheiro, uma cozinha, um quarto.

Ali, sentado e fumando um cigarro fui (como num relance) transportado para 25 anos atrás, eu fui aquele garoto de 23 anos que começara a construir uma casa. E é engraçado pensar que, com exatos 23 anos (a minha idade hoje) meu pai olhava pelas paredes deste terreno, pensando na terraplanagem que precisava fazer, na fundação que deveria segurar os moldes da casa, o piso que ele colocaria e como a casa que ele desenhara um dia ficaria.

Fui exatamente meu pai 25 anos depois… Eu aqui sentado, ele ali de pé, ambos fumando um cigarro, eu contemplando sua obra, ele contemplando seu sonho.
O sonho de construir uma casa para vender e com o dinheiro poder ter finalmente sua loja de carros, afinal, eram meados de 1990, o Brasil passava por uma fase econômica delicada e ele precisava fazer dinheiro para construir sua família.

Mas daí seus planos mudaram, pois eu decidir vir e ele decidiu ficar, e aqui ficamos, e aqui estamos… Quando ela se foi.

Me confortam as palavras do criador do meu caráter e construtor destas paredes: “Esse é o progresso, meu filho. O passado é para ser lembrado, o presente vivido e o futuro planejado”.

Com estas palavras em mente vou-me embora levando um tijolo mais velho que eu, para a fundação de minha futura casa.

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