Hoje eu falei com ela

É, falei com ela…

No meio do trabalho recebi uma ligação inusitada, vi depois, mais tarde retornei.

– Oi, você me ligou?
– Pois é, liguei errado, mas que bom que ligou, faz muito tempo que não nos falamos… Como anda a vida?
– Ah… anda.
– Quais são as novidades?
– Não muitas, continuo no mesmo emprego, fazendo as mesmas coisas que gosto, cê sabe.
– É… por aqui também.

Tinha um semblante sorridente e feliz, provável que realmente estivesse contente com a ligação.

– Vi que está namorando, fiquei muito muito feliz quando soube. Sabe, eu quero o seu bem… Como vai?
– Pois é, vai indo… e você, quais seus planos?
– Ah! Não sei, agora tem o Fê, e ele quer ficar por lá.
– Talvez você se mude?
– Talvez, ainda não sei…

E por longos minutos aquela conversa travada se desenvolveu.

– Mas sabe… acho que era o mais certo o que aconteceu, a gente não tinha mais jeito…
– É, eu sei (concordei calado).

No interior de mim a nostalgia já judiava a duras machadadas, não sabia de onde vinham as lágrimas, mas elas queriam subir.

– Mas por um bom tempo eu tive muita raiva, e a raiva consumiu o amor como cera e fogo, e hoje já não sobra mais nada…
– Nossa, isso é forte! É triste!
– É, mas foi assim… foi assim por um bom tempo.

Sua resposta calada tinha dor. As frases pausadas eram acompanhadas de olhos marejados e de uma voz trêmula.

– Foi muito tempo de nossas vidas, né?
– Foi.
– Mas fico feliz de conversar com você! Vamos tentar fazer isso com mais frequência, por favor.
– Vamos, claro!

Neste tom a conversa decorreu por mais 40 minutos, falamos da família, de trabalho, sobre projetos e do presente.
Eu não me identificava mais com ela e nem ela comigo… tínhamos nos tornado muito diferentes, mas partilhávamos da mesma dor, tal como há tempos partilhávamos do mesmo picolé.
E assim passou…

– Olha, está ficando tarde. Eu preciso dormir.
– É, eu também.
– Beijinhos, tchau.

Tal como nós de marinheiros, laços afetivos não são facilmente desfeitos. E assim como um alpinista se prende a cordas para subir a montanha, essas cordas não se desprendem das rochas. Elas ficam atadas em seu mosquetão, o relembrando dos caminhos seguros que passou para chegar onde está, com seus calos na mão de tanto essas cordas segurar.

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