Os olhos negros

Ele a conheceu por acaso, por uma amiga em comum. Logo já ficou encantado: era muito bonita. Muito mesmo. Ficou receoso de falar com ela, de chamá-la para sair. Sua timidez natural fica tanto pior quanto mais bonita é a menina.

Aliás, menina nada: mulher. Era mais velha. Não muito, mas era. Até aí, nenhum problema para ele, mas será que ela daria atenção para um “moleque”? Mais uma vez, ele se enchia de dúvidas e nada fazia.

Tomou coragem, enfim. E, para sua surpresa, ela foi receptiva, sorridente. Mesmo assim, ele tremia e suava frio diante daqueles enormes olhos negros. Pelos próximos encontros não seria diferente.

A tremedeira passou. Ele se sentia orgulhoso de dar as mãos para uma mulher daquela, tão bela, tão inteligente, tão divertida. Com ela, o coração dele ficava mais leve. Teria ele encontrado A garota? Seu ânimo era bom, e ele estava feliz.

Passado um tempo, contudo, ela começou a mostrar um humor instável, e se tornava irascível sem motivo aparente. Tinha acessos de ciúme e, depois de acusações infundadas e enfurecidas, se punha a chorar. Pedia desculpas, e ele, claro, as aceitava (como se pudesse agir diferente diante daqueles olhos!).

A situação, longe de melhorar, passou a se tornar insustentável. Ele já não podia suportar as constantes discussões (de uma pessoa só) e resolveu que precisava se afastar. Era o melhor não só para ele, mas também para ela (era o que ele pensava).

Com a maior delicadeza que conseguiu reunir, sentou-se para conversar com ela. Tentou explicar que aquela relação não estava dando certo, que já estava ferido e não queria mais se magoar. Tentou mostrar que era melhor parar ali, antes que tudo ficasse mais difícil. A reação dela, como era de se esperar, não foi das mais serenas.

Ela explodiu, o insultou, usou nomes que ele até então nunca tinha ouvido. Não que ele tenha se surpreendido, já contava com isso, mas achou que as ofensas seriam mais brandas. Como sempre, não respondeu, não xingou de volta. Apenas foi embora e a deixou gritando sozinha.

Também sem surpresa foi que ele recebeu, logo depois, mensagens pedindo desculpas. O velho ciclo, que ele conhecia tão bem, estava recomeçando. Cabia a ele decidir se entraria na ciranda novamente ou se poria um fim em tudo aquilo.

Nunca mais se falaram. Já faz tempo que ele não tem notícias dela. Ainda hoje ele pensa nos grandes olhos negros. E bate uma tristeza por tudo ter sido como foi, apesar de ele saber que não havia outro jeito. Seus amigos sempre o condenaram: “Você deveria ter ficado com ela! Ela só precisava de ajuda”. Ajuda! Ele nem mesmo pode SE ajudar…

Em outros tempos, porém, ele se manteria lá. Quando mais jovem, parecia mais paciente, mais disposto a suportar crises desnecessárias. A breve passagem dos olhos negros, portanto, deixou mais que boas lembranças, deixou no coração dele uma dúvida: agora ele está mais maduro ou mais intolerante?

Só os próximos olhos dirão.

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